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Sonhos, sonhos são...

Bariloche/aquivo pessoal Platão escreveu. Jorge Luis Borges adaptou para O Livro dos Sonhos que consulto como se fosse um oráculo. (Talvez o seja mesmo...) Tento aqui uma interpretação livre, direta. Adormecer é permitir que a ‘alma’ liberte-se do corpo (ou da imagem exterior que temos e preservamos) e vague noite adentro por caminhos que bem escolher. Quando fechamos os olhos, liberamos essa rota de fuga. O simples ato de fechar os olhos acalma e aquieta movimentos e aflições. Assim, em paz, advém o sono. Se o repouso é completo, “um sono quase sem sonhos se abate sobre nós”. De outro modo, nem sempre conseguimos, mesmo ao dormir, domar medos e desejos, frustrações e expectativas. Sentimentos esses de múltiplas naturezas que reaparecem em imagens de diversos tipos e intensidade, que se assemelham ou não às que nos são conhecidas da vida real “e das quais conservamos alguma lembrança ao despertar”. II. Sobre o teor de profecias que, dizem, os sonhos possuem, Borges transcreve um trecho de ‘História Del Nuevo Mundo’, de Bernabe Cobo: Huayna Cápac vivia em uma aldeia que foi dominada pela pesta. Com medo de infectar-se Huayna Cápac fugiu para as montanhas e encerrou-se em uma gruta. De lá não saía para nada. Em uma noite, em que estava à beira do desespero, ele adormeceu e sonhou que três anões lhe diziam: -- Inca, viemos buscar-te! Ficou ainda mais confuso, e assustado. Mesmo assim, voltou a dormir. Sonhou que o oráculo de Pachacámac lhe ordenava sorridente: -- Inca, ponha-se ao sol! Huayana Cápac tranquilizou-se. Imaginou que era o fim do isolamento. O recomeço da vida. Saiu o inca ao sol e, em seguida, morreu.
Escrito por Rodolfo C. Martino às 10h26
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Hawilla e o Diário de S. Paulo

Foto: Jô Rabelo Não muda nada, mas pode mudar tudo no universo paulista das letrinhas impressas e diárias. O empresário J. Hawilla anunciou ontem a compra do Diário de S. Paulo que, até então, pertencia às Organizações Globo. Aos desavisados navegantes, um adendo. Hawilla é o dono da Traffic, uma das mais importantes empresas de marketing e eventos esportivos do Planeta. Fez carreira como repórter de campo da Rádio Bandeirantes e da Rádio Globo, de onde foi demitido em 79 por aderir a malsucedida Greve dos Jornalistas. Hoje, aos 65 anos, seus negócios vão muito além das esferas esportivas. Possui a rede de jornais Bom Dia que circula em 100 cidades do interior paulista e uma afiliada da Rede Globo em São José do Rio Preto, sua cidade natal. Ou seja, o homem é um Midas dos tempos modernos. Em 30 anos construiu um império. Outro adendo. Há cerca de sete anos, a Globo comprou o Diário Popular, do ex-governador Orestes Quércia, com interesse em estabelecer em São Paulo outro braço impresso do maior conglomerado de comunicações do País. A primeira medida da Família Marinha foi trocar o nome do jornal. De Diário Popular passou a se chamar Diário de S. Paulo. Nunca ficou claro o objetivo da mudança do nome. Jornal que desapareceu em meados dos anos 70, quando o Império Chatô (leia-se Diários e Emissoras Associados) entrou em crise, que culminou inclusive com a falência da TV Tupi, primeira emissora de TV do País. Até porque esta era denominação do matutino de Assis Chateaubriand na cidade.
Há quem diga que a Globo quis tirar o ranço popularesco do jornal, cuja linha editorial se apoiava nos noticiários esportivo e policial. Com isso, pretendia atrair novos e mais requintados anunciantes. O Diário Popular era chamado o Rei das Bancas. Tinha poucos assinantes e a força comercial residia nos pequenos classificados de empregos, automóveis e demais anúncios econômicos. Mesmo com toda tradição e história , o DiPo já não rivalizava em prestígio e negócios com os dois ‘medalhões’ da imprensa paulistana: O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo. A Globo queria fatiar esse bolo em três. Não conseguiu, e tocou a bola para frente. Por isso, comecei o texto dizendo que não muda nada. O objetivo de J. Havilla será o mesmo. Abocanhar parte dos anunciantes de peso e do, digamos, poder político e midiático da Folha e de O Estado. E é exatamente neste ponto que tudo pode mudar. Hawilla não vai administrar o jornal do Rio de Janeiro, como faziam os antigos proprietários. Conhece bem a cena política paulistana e, principalmente, ele acredita no futuro do jornal impresso. Ou seja, faz toda a diferença.
Escrito por Rodolfo C. Martino às 10h53
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Dunga e Maradona

Foto: Jô Rabelo Consta que: Dunga é um bom moço. Maradona, nem tanto. Os dois foram campeões do mundo por seus respectivos países. Marcaram épocas. De forma distinta, é bem verdade. Dunga nomeou uma “era” que muitos preferem esquecer. Contradiz a malemolência e o futebol arte. Maradona é endeusado na Argentina. O melhor de todos os tempos. De todas as eras. De todo o sempre. Dunga sempre conviveu com a crítica ácida. Contundente. Ele desconfia que o perseguem.. Maradona só recebeu elogios. Mesmo quando se afundou nos desvãos da vida. Venerável, Pibe. Consta que: Os dois assumiram como técnico das seleções de seus países. Ambos desacreditados. Estreavam na função. Que, diga-se, é ingrata e não permite vacilos. Outro fator: Dunga foi apenas um bom jogador. Dedicado, sério. Disciplinado. Maradona foi um craque fora de série. Extraordinário, imprevisível. Maluco-beleza. Apesar da desconfiança, Dunga montou um time correto. Que, à sua imagem e semelhança, não encanta. Vence. Classificou-se para o Mundial com três rodadas de antecedência. Tudo nos conformes dungueanos. Sob olhares complacentes, Maradona não montou time algum. Sua imagem à margem do gramado, era a atração. Valeu mais do que a atuação dos argentinos faziam em campo. A Argentina vai à Copa – mas, quase não chega lá. Consta que: Ontem, os dois se julgavam técnicos vitoriosos. E assim foram para as respectivas entrevistas coletivas. Dunga enfrentou os repórteres com certo cinismo de quem pensa: “Vocês não sabem do que estão falando.” Maradona soltou os cachorros em cima dos jornalistas. Mandou que fossem e tomassem e... Bem, deixa pra lá! Esqueceram que não falavam unicamente para “os periodistas”. E, sim, para o distinto público dos distintos países que se dizem honrados em representar. Podem ter lá suas razões – e acho mesmo que têm. Os jornalistas falam demais, escrevem demais, criticam demais, noticiam demais. Mas, querem saber? Os dois me pareceram tão tolos. Destoavam do momento pleno de felicidade que todos viviam, inclusive os jornalistas; no fundo, os maiores torcedores.
Escrito por Rodolfo C. Martino às 10h39
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Paul Anka está de volta

Foto: Camila Bevilacqua Considero deselegante comentar o “ato falho” de Michael Jackson e dos que cuidam da sua obra postumamente. Prefiro ressaltar que o velho e bom Paul Anka está de volta às paradas. Ele era o cara lá pelos fins dos anos 50, com o que chamavam de rock balada. Não era assim um Elvis Presley. Mas, suas baladinhas sacudiam a tal juventude transviada. Românticas, levemente sincopadas, e um tanto quanto peraltas para os padrões da época. “Diana” é o mais conhecida delas. No Brasil, ganhou uma versão saborosa na voz de Carlos Gonzaga e ainda hoje faz parte do imaginário da rapaziada acima dos 50. A bem da verdade, empolga a turba de todas as idades quando toca em bailes de formatura e afins. Inspirou Caetano na tropicalíssima “Baby”, na virada dos anos de chumbo. “I love you, baby” Outra canção histórica deste canadense de 68 anos é "May Way". Tem uma leitura definitiva na voz de Frank Sinatra, uma das músicas do século. Agora, Paul Anka aparece como parceiro de Michael Jackson na recém-lançada “This Is It” que constava do espólio musical do Rei do Pop. A bem da verdade, a canção foi lançada nesta semana sem que se creditasse a parceria. Mas, o músico veio a público e ameaçou cobrar na Justiça os direitos que lhe são de direitos. Os responsáveis pelo lançamento desacreditaram. Michael aprontara outra das suas. Que fazer? Mais uma das esquisitices do Rei do Pop, digamos assim. Toparam um acordo. Vão lhe dar 50 por cento dos lucros. Mais do que justo. Paul Anka provou que a música foi composta em 1983 para constar do disco “Walk a Fine Line”. Mas, ficou de fora. O título original é “I Never Heard” e foi gravada, anos depois, pela cantora porto-riquenha Sa-Fire. Sem maior repercussão. Agora na voz de Michael, com leves adaptações, entra para a história da canção popular de todos os tempos.
Escrito por Rodolfo C. Martino às 10h19
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Não Foi Por Falta de Trilha Sonora (4)

Foto: Jô Rabelo Quem tem, tem Quem não tem, Não se conforma...
(Questão de Posse)
Eu entendo a juventude transviada E o auxílio luxuoso de um pandeiro Até sonhar de madrugada Com uma moça sem mancada Uma mulher não pode vacilar
(Juventude Transviada)
O tudo o que se tem Não representa tudo O puro conteúdo É consideração
(Congênito)
Cai nos meus braços Você não tem onde cair
(Paquistão)
As letras do carioca do Estácio, Luis Carlos dos Santos, o consagrado Luiz Melodia, chamaram a atenção desde o primeiro momento em que apareceram em cena. Frases esparsas, por vezes desconexas, que nunca chegavam a formar um todo, mas davam seu recado. Melhor: eram a cara e alma daqueles fragmentados anos 70 quando os artistas do primeiro time da MPB perderam espaço no rádio e na TV e tiveram que cavar trincheiras em outras frentes – como o chamado circuito universitário – para sobrevivência de sua arte e, por que não, da sua indignação.
Foi assim que no ano santo de 1976, Melodia chegou ao segundo disco “Maravilhas Contemporâneas” que hoje lembramos na série “Se o Mundo Não Ficou Melhor, Não Foi Por Falta de Trilha Sonora”.
Lançado pela Som Livre, o trabalho consolidou Melodia como intérprete originalíssimo. Como compositor, desde sua aparição na voz de Gal Costa, com “Pérola Negra”, ninguém mais o questionava.
-- Sou negro e carioca. Mas, não tenho a menor obrigação de fazer samba.
O aviso de Melodia soou plenamente dispensável.
Além dos versos intrigantes, o cantor/compositor espalhou-se a gosto por melodias engenhosas e de muito vigor. Com influências claras do jazz, do rock, dos sambas de gafieira e o baticum da Zona Norte do Rio. Ou como ele definiu à época:
-- Tudo no instinto, na pureza, no faro, no tato.
Escrito por Rodolfo C. Martino às 12h26
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Senhora Aparecida

Foto: Camila Bevilacqua Estive em diversas ocasiões em Aparecida do Norte. Que bem me lembre, nenhuma delas fui como romeiro. Ou seja, com a finalidade precípua de visitar o santuário que abriga a imagem milagrosa da Padroeira do Brasil que, em todos os 12 de outubro, como hoje, se reverencia e guarda como data santificada, feriado nacional. Como não me é raro o ir-e-vir pela Dutra e o Vale do Paraíba, vez ou outra dou uma paradinha por ali para uma visita ao templo. Não é comum, ando sempre atrasado, na correria, sabem como é, né? Também não é difícil que aconteça. Tenho um amigo, que também vive nessa movimentação pelo Vale, que foi bem sincero na resposta quando lhe comentei se ia muito a Aparecida: -- Depende. -- Do tempo? – eu perguntei. Ele respondeu: -- Das minhas aflições. Um pouca lá, outro tanto cá, suspeito que todos somos assim. Na hora agá, no dia dê, a bênção da Padroeira nos traz a paz de espírito e as certezas que tantos procuramos. Lembro-me de certa viagem que sozinho aos confins do Vale. Não vivia lá um grande momento e, naturalmente, embiquei o carro para a entrada da cidade assim que vi a placa de Aparecida. Estava que estava, desacorçoado mesmo. Tanto que resolvi deixar o carro distante uns cem metros, no enorme estacionamento que existe ao redor do santuário. Era uma tarde de sol, de um quente e abafado verão. Fiz minhas preces lá dentro e, em breves minutos, estava de volta para seguir viagem. Enquanto caminhava para o Fiat Uno verde-escuro, de tantas e boas, desabou uma pancada de chuva – e não havia como escapar. Cheguei encharcado ao carro, mas com a alma leve, lavada e enxaguada em o que entendi como uma bela resposta da Virgem, um alívio para os meus ais. Antes que desse a partida, a chuva parou – e o céu enfeitou-se com um belo arco-íris. Pode ter sido uma grande coincidência, sei lá. Mas, sempre recordo docemente desse tarde de chuva e sol. Não consigo lembrar o que pedi à Santa. Sei, no entanto, que, desde então, muitas coisas boas me aconteceram. Por obra e graça da Senhora Aparecida.
Escrito por Rodolfo C. Martino às 10h09
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Ai de ti, Copacabana

Retrato de Rubem Braga. Por Dorival Caymmi. Óleo sobre tela. Maio de 1945 Termino de ler – ou melhor, reler pela quarta ou quinta vez – Ai de Ti, Copacabana, coletânea de crônicas do grande Rubem Braga. Deliciou-me como da primeira vez. Aliás, reler o Velho Braga é sempre um desbravar da própria alma, do próprio sentimento, das próprias venturas que vemos refletidos no alinhavar das histórias que ele nos conta. Que são dele, vividas por ele ou por pessoas que circulavam ao seu redor; mas, que parecem tão nossas, tão delicadamente nossas. Um revolver de encantos para quem o lê – pena que tão pouco o façam nos dias atuais. Um mestre para quem, como eu, vive a enfileirar letrinhas. “ (...) Imprudente ofício é este, de viver em voz alta. Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir vontade de fazer alguma coisa boa. (...) Alguma coisa que eu disse distraído – talvez palavras de algum poeta antigo – foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.” * Em ‘A Palavra’, crônica escrita em novembro de 1959. Ou seja, lá se vão 50 anos...
Escrito por Rodolfo C. Martino às 11h53
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