Nunca houve nada igual

Nós a chamávamos carinhosamente de Lixão.

Era robusta, trepidante, invocada. E verde.

De sábado à quinta, ficava à nossa disposição para o que desse e viesse.

Às sextas, porém, entregava-se a outros domínios, diria, igualmente carinhosos. Afinal, todos ali a entendiam como um patrimônio. Acreditávamos inteiramente nela que, ao que me recordo, nunca nos deixou na mão.

Como disse, era robusta, trepidante, invocada. E verde.

Dos instigantes faróis dianteiros à consistente e trazeira, era verde.

Inteiramente verde – e nossa.

II.

Estou falando do Lixão, a velha Rural Willys que serviu de viatura de reportagem nos meus primeiros tempos de Gazeta do Ipiranga. Não era uma Rural qualquer. Tinha lá seus quilômetros rodados e uma boa caçamba. Por isso, todas as sextas-feiras, o pessoal da Distribuição a requisitava para ‘apoio’ na entrega dos então 43 mil exemplares da Gazetinha.

Seu Elizeu, o motorista, ia junto.

E nós da Redação ficávamos a mercê do busão ou de uma eventual e salvadora carona para qualquer emergência. Aliás, torcíamos para que o Zé Jofre, responsável pela entrega, adiantasse o serviço para que mais cedo pudéssemos ter o Lixão conosco.

Aí, sim, nos sentíamos com o time completo.

Prontos para qualquer emergência. Aptos a fazer reportagens que mudariam a história da humanidade.

III.

Aprendemos a ser exigentes com o Marcão, o principal jornalista da Casa. Qualquer reportagem que tratasse de um simples buraco de rua, ele nos fazia entender que estávamos diante de um grande desafio. Se fizéssemos o que deveria ser feito, logo os moradores daquele lugar seriam beneficiados – o que seria um serviço à sociedade. Ao ler a reportagem, as autoridades saberiam de qual lado estávamos. Moradores de outras ruas compreenderiam que éramos porta-voz “dos seus legítimos anseios e reivindicações”.

Parece que ouço o Marcão:

-- Essas são as melhores pautas, rapaz. Vá lá. Tire leite de pedra.

-- Sim, senhor.

-- Senhor está no céu, ô burgesinho alienado.

-- Desculpe, seo Marques. Quer dizer, Marcão.

IV.

Normalmente, saíamos eu, o repórter-fotográfico Cláudio Micheli (Clamic) e o seo Elizeu. A Rural só tinha um banco, enorme. E nos ajeitávamos por ali confortavelmente. Nessa baiúca queridíssima de todos nós, enfrentamos enchentes históricas, acompanhamos carros de bombeiros atrás do incêndio, subimos e descemos ruas enlameadas, “viajamos” pelos 32 Jardins e Vilas do subdistrito do Ipiranga. Sempre a caça de notícias...

Havia um sonho. Havia uma causa.

Não seria exagero dizer que éramos felizes, mesmo ganhando pouco mais que alguns trocados.

V.

Numa tarde quente e instável como a de hoje, tocou o telefone da Redação. Alguém atendeu e soube que estava havendo um assalto na rua Mário Vicente, não muito longe da Bom Pastor, onde se situava a sede do jornal.

O Clamic não havia voltado do almoço. Partimos, então, o seo Elizeu, eu e o Waltão, outro repórter-fotográfico.

Quando chegamos, logo percebemos a movimentação de dezenas de viaturas da PM e da Civil e muitos policiais fortemente armados. A versão que colhi junto a um deles era a seguinte: dois meliantes tentaram roubar uma residência vazia, os vizinhos perceberam e chamaram por socorro. Os ladrões se tocaram e deram área, saltando de quintal em quintal das casas geminadas. Até aquele momento, ninguém sabia se ainda estavam por ali.

Estávamos nessa conversa quando ouvimos um forte estrondo. Todos se assustaram. Os policiais engatilharam suas armas. Houve um corre-corre generalizado. Uma confusão.

Quando dei por mim estava dentro de uma farmácia no compartimento onde se aplica injeção, sabem qual? Seo Elizeu, no bar estava no bar ficou. O Waltão não teve dúvidas: atirou-se sobre a carcaça do Lixão – e ali se sentiu o mais inexpugnável dos mortais.

Na verdade, tudo não passou de um susto. Foi apenas uma porta que bateu com o vento. Mas, deu para perceber o tamanho da nossa coragem e o quanto Waltão confiava na velha Rural.

Hoje, pela manhã, vi uma camioneta parecida que se arrastava pela Vergueiro.

Na hora decidi a história que lhes contaria...

VI.

Por um motivo simples.

Com o passar dos anos, aposentamos nossa companheira de trabalho. Vieram Fuscas de todas as cores, Gols de vários calibres, Unos igualmente sacolejantes, uma voluntariosa Kombi e até dois Ladas que mais ficavam no conserto do que rodavam.

Ou seja, vários veículos de várias procedências.

Mas, nunca houve nada igual ao Lixão, primeiro e único. E era nosso. E verde.

 

* Homenagem a Gazeta do Ipiranga que hoje, 26 de abril, completa 50 anos.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 08h03
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Minha melhor reportagem

"Elis revolucionou a maneira de interpretar. Mostrou uma força extraordinária e se agigantou no palco, apesar dos seus 1,53 de altura. Essa foi Elis Regina. Regina. Rainha. Maior cantora do Brasil"  - (Zé Armando, em Gazeta do Ipiranga em 19 de janeiro de 1982).

01. Quase 28 anos de profissão e sou obrigado a lhe confiar um segredo. Minha melhor reportagem não foi publicada. Pois é. Não sei onde anda, menos ainda que fim levou. Como assim? Vou lhe explicar tim-tim por tim-tim.

02. Trata-se de uma entrevista exclusiva que realizei com Elis Regina nos camarins do Teatro Tupi em 1978. Eu e o amigo Clóvis Naconecy, recém-saídos da USP, tínhamos a idéia de escrever uma enciclopédia sobre a música popular brasileira e, nessa toada, catalogamos centenas de nomes de cantores e compositores que seriam ouvidos por nós. Fraternalmente dividimos a longa lista em duas partes -- a que me coube começava justamente pela cantora gaúcha Elis Regina de Carvalho Costa, codinome Pimentinha por seu jeito contundente de tratar circunstanciais desafetos e antipatias.

03. Munido de um gravador daqueles antigos, do tamanho de caixa de sapato, rumei para a avenida Luiz Antônio, com cara, coragem e manancial de 20 perguntas. Na inquietude dos meus 27 anos, queria que Elis falasse sobre tudo, de Ernesto Nazareth a Roberto Carlos, passando por Pixinguinha, Elizeth Cardoso, Beatles e os novos autores que acabara de lançar, Belchior e João Bosco. Afinal, imaginava que solenemente estávamos escrevendo a própria história da MPB.

04. Elis estava em cartaz com o show "Transversal do Tempo" e, mais uma vez, era sucesso de público e crítica. Chegava por volta das 17h30/18h ao teatro para preparar-se para o espetáculo. Ficava sozinha no camarim. Naquela sexta-feira, chegaria um pouco mais cedo para a entrevista. E assim foi...

05. A mulher que encontrei no teatro foi de uma surpreendente simplicidade. Mostrou-se interessada no projeto e feliz por ser uma das primeiras a ser ouvida. Respondeu objetivamente a todas as perguntas. Sempre com muita convicção. Músicos são os rapazes do Zimbo Trio, ironizou os grupos de rock da Jovem Guarda. Jair Rodrigues é melhor cantor do Brasil. Deveria ter o sucesso do Roberto Carlos. Só não tem porque somos um povo preconceituoso -- enfatizou sem deixar de sorrir. Fazemos a melhor música do mundo. Só que as rádios "esquecem" de tocar -- disse comentando os acertos entre gravadoras e emissoras de rádio.

06. A entrevista prolongou-se por horas. Quando deixava o camarim, notei que já era noite e a camareira preparava a roupa com que Elis, nossa melhor cantora, entraria em cena. Dias depois, bateu uma dessas preguiças estúpidas, então pedi ao Clóvis que "passasse" a fita para depois fazermos o texto final. O projeto da enciclopédia perdeu-se nas obrigações diárias. E, com o tempo, perdi a fita e o amigo de vista... E lá se foi a melhor reportagem deste escriba trapalhão...

07. Amanhã, 19 de janeiro, reverenciam-se 20 anos da morte de Elis. Um tempo e tanto. Uma perda inestimável para a MPB. Todos os anos, sempre que se fala de Elis, não há como não se lembrar dessa história... E penso que acontece o mesmo com outro amigo (que a vida me tornou distante), o Rui Conde, que foi comigo e, de pé num canto do camarim, assistiu a entrevista com os olhos de quem vê uma estrela de rara e infinita beleza.

 

* Publico hoje este post/crônica, conforme prometi aos estudantes do primeiro semestre noturno de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo em bate-papo que tivemos semana passada sobre jornalismo cultural dos anos 70. O texto foi publicado originalmente em Gazeta do Ipiranga em 18 de janeiro de 2002.

 

 

 



Escrito por Rodolfo C. Martino às 08h09
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O dia em que a Terra tremeu...

Dizem pela aí que é no sacolejar da carroça que os cocos se ajeitam. Não tenho porque duvidar. Não sou do ramo hortifrutigranjeiro, embora me apeteçam mais as melancias, sem qualquer alusão à garota que dança aquela dança maluquete.

Vocês me conhecem e sabem que não seria capaz de tamanhos arroubos.

De qualquer forma, aproveito o aforismo e as manchetes dos jornais (que, em uníssono, propagaram, nesta manhã de ontem, TERREMOTO ASSUSTA SÃO PAULO) para dizer que é no exato instante das situações limites que conhecemos as pessoas.

Repararam o tanto de equívocos que causou o tremor de 5,2 na escala Ritcher, com epicentro a 272 quilômetros do Litoral sul.

Não?

Então, me acompanhem nos relatos.

A amiga Luciana, por exemplo, jamais esquecerá essa noite. Não que acontecesse algo de mais grave com ela. Simplesmente porque a moça, que mora na Zona Sul, foi esquecida por todos na hora que evacuaram o prédio onde mora no nono andar. Vizinhos, amigos e familiares desceram esbaforidos para escapar das eventuais conseqüências do abalo – e ela, desligada que só, entretida com mais um capítulo da novela, nada percebeu. Só se deu conta de que algo de errado estava acontecendo quando foi à janela para tomar uma fresca e viu todos os moradores do “Jambalaia” ensimesmados a olhar para o condomínio.

Sentiu-se a última das mulheres. Ninguém notou sua falta. De que adiantaram as plásticas e o botox, a lipo, as horas de academia. Jamais perdoará a humanidade e o síndico, "aquele bonitão", que nem se incomodaram em avisá-la.

Enquanto isso, no outro lado da cidade, Raquel que andava assim assim com o maridão estava surpresa, com a pegada do rapaz. O epicentro da moça foi outro – e só abalou mesmo o sobradinho da Vila Prudente.

-- O que foi isso, hein, mô. Que vontade! Benza Deus. Até a cama saiu do lugar. Por uns instantes, pensei que o mundo todo estava tremendo...

Lucrécio, o marido com ares de modéstia – e sem saber do ocorrido – fechava questão.

-- Você ainda não viu nada garota. Os bons tempos estão de volta...

Pelos lados do Morumbi, uma alta patente do Tricolor, ao sentir o sismo, fez logo a ligação com o quê ocorreu domingo num incerto Parque Antártica.

-- Só pode ser armação daquele outro time. Para mexer com os nossos brios. Vou fazer uma representação para o Tribunal de Justiça Desportiva e anularemos a partida de domingo. Claro que o terremoto teve influência no resultado de domingo.

Nada se compara, porém, a reação de Dinoel. Terça, 21h05. Ele avistou a morena Dagmar no exato instante em que a terra trepidou. Que traulitada! Toda soltinha numa mini-saia, estonteante, veio caminhando em sua direção. O homem balançou, mas foi científico no veredicto que deu para o momento:

-- Que deusa é essa? Essa mulher me tira o chão...

...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 09h14
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Salve Jorge!

“Domingo, 23, é dia de Jorge.”

Talvez fosse o cavalo branco e belo, ares de nobreza. Talvez fosse a armadura prateada, que confiava magnitude à imagem do guerreiro. Talvez ele próprio, então prestes a completar 4 anos, se imaginasse com coragem suficiente para embates e lutas. Que sequer podia sonhar seriam sua sina vida afora.

Fiquemos com o talvez. Fiquemos, pois, com o garoto. Que não teve dúvidas quando a amiga da mãe lhe perguntou carinhosa:

-- Pitchinim, o que você quer de presente.

-- Não precisa, Olga – rebateu a mãe zelosa.

-- Quero aquele santo que tem um cavalo branco - respondeu convicto.

-- Tem certeza – perguntou a moça.

-- Tenho.

-- Acho que meu filho vai ser padre. Deus o escolheu.

Coisas de mãe...

II.

No dia aprazado da tradicional festinha de aniversário, os olhos do garoto enlevaram-se quando viram a estátua, de pouco mais de 20 centímetros. Não era grande quanto a de Santa Rita de Cássia que o tio exibia na assobradada casa da avó materna. Nem pequena o suficiente para não se impor no meio dos seus brinquedos.

A mãe entendeu o que se passava na mente do menino.

-- Não é para brincar, não. É para você olhar todos os dias. E pedir proteção.

Primeiro, o santo foi parar em cima do guarda-roupa. Mas, ele reclamou. Não conseguia ver direito. E o 'brinquedo' era dele. A mãe sorria, pegava um banquinho, subia e trazia o santo guerreiro para perto das mãos do garoto sonhador.

-- Pede a benção, pede filho.

Ele gesticulava rapidamente o sinal da cruz. Mas, em seu pensamento, era parceiro do próprio cavaleiro que morava na lua e, destemido, enfrentava o dragão, com sua lança justiceira.

-- Ele é príncipe, mãe?

Sem ter a precisão da resposta, a mãe abria um sorriso e recorria a fé.

-- É um santo, filho. Um santo guerreiro, o corajoso Jorge da Capadócia que se converteu ao catolicismo. E morreu martirizado.

Demorou a entender. Mas, também, não era esse o enredo que queria para sua história.

-- Que bicho é esse, mãe?

-- É um dragão que põe fogo pelas ventas. Mas, não se assuste porque esse monstro não existe. É só uma simbologia.

-- Ah!, sei...

Outra vez a mãe mudava o enredo da sua história. Então, desconversava. Mas, intimamente, não tinha dúvidas. Se o bicho aparecesse por ali, ele o enfrentaria com sua espada de pau. Mas onde arranjaria um cavalo branco?

III.

Quarta, 23 de abril.

Cinqüenta e tantos anos depois...

O homem acorda e, antes de ir para o trabalho, passa na casa da mãe. Vai tomar o café da manhã, rápido, mas obrigatório.

-- A senhora está bem? Tomou os remédios?

As perguntas de sempre que ficam sem respostas. Pois, desandam, mãe e filho, a falar das notícias do rádio. Das irmãs distantes. Do neto dela - filho dele - que está um moço. Da vida como ela é – e sempre será.

-- Vou indo... Está na minha hora. Benção mãe.

-- Você esqueceu de rezar. Vai ver seu santo. Hoje é Dia de São Jorge.

Ela dá a costumeira risadinha quando vê que o filho faz meia volta e se encaminha para o quarto. Por alguns segundos, ele se posta a frente da velha cômoda. Ali, num altar improvisado, o 'parceiro' divide espaço com outros santos da devoção da senhora de 82 anos. A estátua está intacta. Só o branco do cavalo amarelecido pelo tempo. Mas, o porte do guerreiro continua impecável. Ainda e sempre na luta contra as forças do mal.

Sente-se em paz e protegido. Também se vê como um guerreiro. Não ganhou todas as batalhas. Mas, preservou a capacidade amar e as infinitas possibilidades do sonho. Não tem do que se arrepender. Fez e faz o caminho com o seu passo. Reza, agradece ao santo e ao milagre da vida.

-- Vai com Deus, filho. Que São Jorge o proteja. Hoje e sempre.

-- Amém.

Ele sai para enfrentar o novo dia. Embates e lutas que sequer ousou sonhar. Tristezas, decepções. São apenas - e tão somente - uma simbologia. Saberá enfrentar com a coragem do menino que se fez homem e as bênçãos do guerreiro que se fez santo...


Escrito por Rodolfo C. Martino às 05h03
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O Menino da Porteira e o Vagabundo

 Lá no mais antigo dos anos, entrevistei o garoto que fez o filme 'Menino da Porteira', um baita sucesso com Sérgio Reis. A antiga toada sertaneja regravada virou filme. O garotinho Márcio Costa fazia o personagem-título. Tinha nove, dez anos, se tanto. A mãe o levou ao jornal e falava por ele que, por sua vez, ficava a se olhar no reflexo do vidro da janela da redação. Alheio ao que se passava ao redor, ajeitava o cabelo, fazia caretas, sorria, gesticulava num mundo que era só dele. E a mãe a dizer que o filho nascera para a arte e ele a interpretar ele mesmo em frente a janela.

Essa imagem ficou em minha cabeça.

 

O tempo, senhor de todos os ritmos, passou. O menino, depois do filme, fez algumas novelas, outras tantas peças teatrais. Porém, nunca mais alcançou a mesma projeção. Virou adulto e os papéis rarearam. Reapareceu na redação várias vezes. Vinha divulgar o curso de teatro que iria ministrar na escola tal ou falar do 'personagem incrível' que iria representar numa peça infantil ou mesmo para anunciar que seria escalado para a novela XYZ -- papel que invariavelmente perdia para os novos meninos da porteira, de todas as idades e procedências.

Num dia de julho de 2004, o tal menino, aos 36 anos, não sei se diante da janela ou do espelho, encenou o derradeiro personagem. Morreu sozinho num apartamento no bairro do Ipiranga, onde sempre morou. Foi o fim do que se entendia ser 'a promissora carreira'. Ninguém soube explicar o ato final. Saiu uma brevíssima nota sobre o fato num jornal da região – e só.

Lembrei essa história assim que ouvi dizer que estão refilmando O Menino da Porteira. Quis fazer uma modesta homenagem ao Márcio Costa. Quis também propor a reflexão sobre os dois lados da moeda. A fama e o anonimato. O sim e o não. Vivemos tempos estranhos. É a vida que nos enreda e nos exige forte e, ao mesmo tempo, precisamos ter a desfaçatez de não nos levarmos a sério. A nós, aos nossos quereres, à nossa rotina. Algo assim como a leveza de um filme do Carlitos - que, por sinal, era o apelido do meu avô.

Repare como o vagabundo toca a vida, mesmo na maior das aflições. Para ele, os chefes, as autoridades, os poderosos são invariavelmente medíocres, bizarros - qualquer semelhança como nosso dia-a-dia é mera coincidência. Os amores tardam, se esgueiram daqui e dali. Mas chegam e, o que é melhor, sempre chegam no momento certo.

 

E ele não precisa mais.Tem o auxílio luxuoso não de um pandeiro, pois não nasceu Luiz Melodia, mas de uma bengalinha e um chapéu 'coco' ou mesmo de um brevíssimo sorriso,  um olhar que seja. Assim dá ritmo à caminhada sem pressa porque a estrada é longa e sinuosa. Perde-se nos confins do faz-de-conta e é infinita enquanto se chamar esperança.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 09h57
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Estamos aí...

Uma adaptação on-line para a canção “Sinal Fechado”, de Paulinho da Viola.


Ele, no MSN:

-- Será que essa mensagem de náufrago lançada dentro de uma garrafa virtual vai chegar até você?

Ela, idem:

-- Mensagens sempre chegam aos seus destinos. Não importa o meio que se use.

Ele:


-- Ontem queria conversar. Falar e ouvir. Mas, não aquelas bobagens que todos conversavam alegremente.

Ela:

-- Percebi mesmo que estava perdido entre os rostos, risos e idéias da turma.

Ele:

-- Ando avulso de sonhos e de alguma ilusão. Coisas que para mim são vitais para tocar a vida e ver estrelas.

Ela:

-- Difícil, mas não impossível ficar avulso. Na maioria das vezes, é até melhor.

Ele:

-- Estava apenas fisicamente ali.  Dorido e vagamente cínico, como naquela canção do Alceu Valença: "Na primeira manhã que te perdi, acordei mais cansado que sozinho."

Ela:

-- Conversaremos, então. Sempre que quiser.

Ele:

-- Eu e minhas encrencas. Enfim. Foi só um desabafo solidário e um "estamos aí".

Ela:

-- Retribuo o "estamos aí".

Ele:

-- Mudando de assunto. E aí. Você, como está?

Ela:

-- Eu? Nada. Normal. Deixo que a vida aconteça. Sei das emoções efêmeras...

Ele:

-- Ah! Então, então... Estamos aí!

Ela:

-- Estamos aí. Beijos.

Ele:

-- Beijo.

E nunca mais se viram ou se falaram. Sequer email trocaram. Mas, é inevitável. Vez ou outra, ele olha o visor do celular e procura o número dela; que nunca mais apareceu. Ela liga o computador e arregala os olhos para ver se há alguma mensagem dele ali. Diante do não, ambos disfarçam. E fazem de conta que não pensaram aquilo que pensaram.

-- Estamos aí, repetem baixinho e se conformam.

Orkut, ele não tem.

No MSN, ela nunca mais deu as caras e as letras.

Mas, é certo: estão pela aí. Em cada um de nós...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 09h41
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Pimpão e os Jogos da Primavera

Os Jogos Colegiais da Primavera eram um acontecimento.

Realizavam-se, em setembro, nas dependências esportivas e sociais do Clube Atlético Ypiranga, lá pelos idos dos anos 60. Uma espécie de olimpíada entre os colégios da cidade. Não havia patrocínio de qualquer órgão oficial - governo, prefeitura, secretaria, essas coisas. Mas, nem por isso deixavam de reunir milhares de jovens diariamente, envolvidos com o esporte e/ou a arte do que chamavam de 'paquera'.

Me apresso em dizer. Tive participação pífia em ambas as modalidades. Ora por falta de interesse dos irmãos maristas, responsáveis pelo Colégio Nossa Senhora da Glória, que não inscreviam nosso bom time de futebol na competição. Ora porque, como paquerador, não revelava a mesma agilidade do esperto quarto-zagueiro que fui; pois chegava atrasado em todas...

Enfim, é da vida...

II.

Mas, tive lá meu bom momento. Ou quase...

Um dia saí de casa todo 'pimpão', roupa de domingo e o escambau. Rumo ao Clube Atlético. Uma caminhada de meia-dúzia de quarteirões, se tanto.

Dou alguns passos, e pára um baita carrão conversível, um Mustang ou modelo do gênero.

O motorista, um filhote do Elvis Presley, me pergunta:

-- Oh, meu, onde fica o Clube Atlético...

Ele não chega a terminar a frase. Ágil como bom goleiro (que nunca fui), salto pra dentro da caranga e, na cara dura, lhe informo...

-- Tô indo pra lá...

Um minuto depois, desço na porta do clube. Os amigos olham respeitosos.

"É meu primo", digo, com ares de Beto Rockefeller, o bicão mais famoso da telenovela brasileira.

E arremato:

-- Quem tem tem. Quem não tem não se conforma...

Pena que a moça não estava lá. Não veio para os Jogos. E deu um w.o. na minha vida.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 04h10
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Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Homem

Rodolfo Carlos Martino é mestre em Comunicação Social. Leciona na Universidade Metodista, onde responde pela coordenação do curso de jornalismo, desde 2005. Foi diretor de Redação de Gazeta do Ipiranga por 28 anos. Autor do livro "Às Margens Plácidas do Ipiranga".

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