Sorrento

 

Relatos de viagens - 52

 

Sol esquivo
Sol de inverno
Sol de
Sorrento

Sol e o mar
O mar de
Sorrento

O que lhes direi?

De barcos, pescadores
E aves marinhas a picotar o céu

O céu de
Sorrento

É azul
Azul sem nuvens
Azul igual a tantos outros

Só que este azul do céu,
Do céu de
Sorrento,
Meu olhar o vê diferente
Pela sépia lente do lembrar

Lembrar
Sorrento
É não esquecer:

Ruas, becos, vielas, casarios...

Tudo tão sem tempo
...tão antigo
...tão sonhado
...tão real
...tão próximo
...tão meu

Como se eu estivesse
prestes a retornar...

Tornar a
Sorrento
Por tudo
Por nada

Para, sem ilusões outras,

perguntar por Marianna

Marianna, de
Sorrento,
Que soltou os cabelos
No dia em que vim embora...

 

* Fim da série Relatos de Viagens, com a qual abasteci este espaço nos últimos dois meses, o blog retoma vida normal a partir de segunda. Ou seja, um post diário com começo, meio e fim e eventuais variações.

 

 



Escrito por Rodolfo C. Martino às 14h28
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O homem dividido

 

Relatos de viagens - 51

Não sei se lhes acontece o mesmo.

Quando viajo dou uma desconectada geral.

 

Creiam: esse tirar a tomada não é sinônimo
de desinteresse. Tem motivo óbvio.
Se estou lá, não estou cá.

Portanto...

Depois, há outras razões vitais
para se preocupar. Além do bate-perna por
museus, igrejas, jardins, lugares históricos,
é preciso buscar um lugar para dormir,
para comer, controlar a grana,
discutir qual será a próxima etapa
da viagem, se vamos de carro ou de trem...

Enfim...

Nunca há uma programação oficial –
e, no fundo, no fundo, acho
que este é o barato da viagem.

Deixar as coisas assim
ao sabor dos ventos, do imprevisível.

 

II.

Neste ano, por exemplo, nos perdemos
pelas ruas estreitas de
Segóvia, uma cidade
medieval onde passamos o reveillon
ou “a noite velha” para eles.

Subíamos aqui, descíamos ali.
Tentávamos um beco, uma viela.
Andávamos pra lá e pra cá – o que é
comum acontecer nessas viagens – até
que chegamos numa pequena praça, onde
havia um monumento, no mínimo, intrigante.

Tinha a seguinte inscrição:

AGAPITO MARAZUELA
Maestro del folclore castellano.

III.

Mas, o que me chamou atenção foi
a escultura em bronze de corpo inteiro
do senhor Agapito ao centro da praça.
 

Há um vão de uns 60 centímetros
entre a parte da frente e
a parte de trás da estátua.

Fiquei a imaginar o que o artista tentou
mostrar com aquela abrupta separação
- frente e verso, corpo e alma,

passado e futuro, sonho e realidade...

Desencanei.

IV.

Assim que cheguei ao Brasil, ainda no
aeroporto de Guarulhos, enquanto esperava
a minha mala, que sempre teima em ser
uma das últimas a dar o ar da graça nas esteiras,
lembrei do Sr. Agapito. E continuei
a lembrá-lo em todos os dias posteriores.

 

E ainda hoje o recordo de quando em quando.

Daí a hesitação em voltar a escrever...

Me sinto, como aquela imagem,
um homem dividido.

É certo que estou aqui a retomar a vida,

os compromissos, o trabalho, os textos.
Mas é certo também que outro tanto
de mim continua a vagar pelas
ruas de Santiago, A Corunha, Segóvia, Ávila...

 





Escrito por Rodolfo C. Martino às 09h30
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O sonho de Jacó

 

Relatos de viagens - 50

Uma conversa leva à outra, certo?

Então continuemos a conversa de ontem, mas vamos para outro lugar. Ainda na encantadora
Madri, convido vocês a me acompanharem ao imponente Museu do Prado.

Não, não me tomem por um diletante das artes.

Estou longe disso.

Por absoluta inépcia de minha parte, não sou o que chamam “um assíduo freqüentador de galerias e museus”. Nem imagino quanto tempo faz que não vou a um desses lugares por aqui. Mas, quando estamos em viagem, consta ser obrigatória a visita a essas instituições.

Sempre fui um turista mequetrefe, confesso. Mas tenho me esforçado para mudar.

II.

Digamos que precisei levar uns trancos para a ficha cair.

Certa ocasião, quase apanhei de uma amiga.

Eu voltava de Roma e, para variar, me dizia maravilhado com as coisas da Itália.

Foi a deixa para ela me perguntar o que achei da Capela Cistina.

Ingenuamente, respondi que, enquanto o meu pessoal foi ao Vaticano, eu preferi assistir a uma partida de futebol, entre Lazio e Siena.

-- Eu e meu filho adoramos futebol e...

Compreensivos leitores, vou lhes dizer. O que ouvi da Fulana não consta da venerável cartilha do respeito ao direito de cada cidadão fazer o que bem entende da própria vida. Ainda mais quando está em férias, e fora de seu magnífico país.

III.

-- Da próxima vez que for a Roma, não me esquecerei de...

Vocês acham que a tal me dava alguma chance de defesa?

Ou mesmo de terminar uma frase?

Pois sim...

IV.

Voltemos a Madri.

Para não levar outro esfrega, quando a turma reservou um dia todo para ficar flanando pelo Museu do Prado, fiz cara de freqüentador do Café Filosófico e expressei toda minha aprovação.

-- Ótimo, ótimo. Creio que é suficiente...

Chic no último.

V.

Lá fomos nós numa daquelas manhãs de janeiro. Lá pelas nove, já embicávamos nos grossos portões de ferro.

Começamos pela lojinha de souvenir e eu ali, firme, na maior pala de que estava interessadíssimo no porta copos com a gravura de Rafael, no botton com o logo do museu, no papel de carta com imagens de alguma madona, essas coisas sem as quais nem um ser sobrevive ao mais reles dos dias.

Não comprei nada. Sequer um daqueles imãs que enfeitam geladeira.

Porém, resisti bravamente, com nobreza e distinção.

VI.

A visita começou em ritmo contemplativo para melhor apreciarmos as obras espalhadas pelos vastos salões. Andávamos a passos contidos, diga-se. Com direito a recuos e olhares mais alongados. Uma beleza! Frente a frente a um dos mais renomados acervos da humanidade.

Não vou relacionar as obras e minhas impressões aqui para não ficar, assim, uma coisa, diria, esnobe, elitizada.

Vocês me entendem, né?

VII.

Uma tela, porém, mereceu especial atenção e preciso citá-la:

O Sonho de Jacó, de José Rivera.

Está exposta num magnífico corredor, pelo qual passamos várias vezes; pois dá acesso a outras áreas de visitação.

E também porque nos perdemos bastante lá dentro.

VIII.

Confesso a vocês.

Não foi a grandiosidade da pintura que me comoveu.

Na verdade, me identifiquei com o comentário feito por uma brasileira que também visitava o Museu. Eu e - provavelmente - ela estávamos em cacos. Enquanto isso, na tela, o patriarca de Israel a dormir o sono dos justos

Era tudo o que eu que almejava naquela hora.

-- Jacó é que é feliz.

Foi o comentário da moça e eu concordei, algo desolado.

Já se passavam das 18 horas e eu ainda me arrastava por ali, sem achar a saída.

 



Escrito por Rodolfo C. Martino às 15h38
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Mulher à Janela

Reprodução de tela de Salvador DaliRelatos de viagens - 49
Não sei escrever sobre arte – aliás, por vezes mesmo desconfio se sei escrever. Mas, como meu ofício e equívoco tem sido ganhar a vida a enfileirar uma letrinha após a outra, após a outra, após a outra, melhor é não entrar no mérito desta questão.

Recomecemos do princípio, pois.

Como escrevi antes, não sei escrever sobre arte – mas, tenho uma amiga, a Leila, que é repórter do Jornal da USP e especialista no assunto. Faz lindas reportagens e já escreveu dois ou três livros sobre o assunto. Tenho-os em casa e, ao que me consta, por esses dias, mais outro deve estar chegando às prateleiras das boas lojas do ramo.

Um assunto leva a outro e a outro - e assim não chego a lugar nenhum.

Vou tentar de novo.

Não sei escrever sobre arte – a bem da verdade, nada entendo do assunto. Que me recorde, só comprei um quadro em minha vida. Esqueci o nome do autor, retrata uma caravana de tuaregues no deserto. Vi ali um quê de mistério. Desconfio que me levou à infância quando me imaginava um desses nômades e trazia uma adaga a tira colo. Não me imaginava mocinho ou bandido, apenas um aventureiro.

Talvez houvesse uma princesa de olhos de jade nessa história. Talvez...

Não sei escrever sobre arte – mas num desses dias fiz uma crônica sobre esse quadro. Se quiser ler, a data é 05.04.08.

Não sei escrever sobre arte – por isso, como vou descrever a obra Mulher à Janela, de Salvador Dali, que é o motivo deste post? Fiquei passado quando a vi, ainda no início do ano, exposta no Museu Reina Sofia em Madri. Desde então venho adiando o dia de escrever sobre a tela. Hoje, resolvi topar o desafio e, como puderam perceber, estou sem coragem.

Enfim...

Surpreendeu-me a simplicidade da cena, tão densa quanto real. Faz contraponto às esquisitices que sempre se imagina ao ouvir o nome de Salvador Dali. Li que a tela pertence à primeira fase do artista catalão (1904/1989), quando ainda estava envolvido com o naturalismo. Mas, já trazia em si o prenúncio do fantástico e do lúdico que marcariam suas obras posteriores.

Que estou a comentar!

Não sei escrever sobre arte – por isso é melhor não me estender.

Direi apenas que a moça, para mim, se faz tão enigmática quanto a Mona Lisa, do Louvre. Com a diferença que, de repente, estamos do lado de cá da janela, tão próximos e tão alheios; como ela, atemporal e cúmplices de um eterno esperar...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 10h32
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




A casa de Cervantes

Relatos de viagens - 48

 

 

 

Meus caros...

Juro estar tão surpreso quanto vocês por chegar até aqui. Em julho, quando me propus a transformar em histórias meus alinhavos de viagem, estimei não ir além de uma ou duas colunas. Pois é, meus caros, chegamos em setembro.

Perdoem-me o linguajar das antigas.

O termo certo é posts. Colunas são do tempo em que só escrevíamos para os veículos impressos.

De qualquer forma, cá estamos com uma nova temática – a visita que fiz à casa de Cervantes em Valladolid – e ainda me restarão mais duas ou três passagens que, no entanto, pretendo transformar em textos só mais ‘prafrentemente’, no decorrer do ano, quando se fizer hora.

Explico o porquê.

Escrever diariamente traz um tanto de desafio e outro tanto de temores – creio mesmo que já falei disso em posts anteriores. Mas, só para arrematar, acrescento que há um jogo compulsivo e incontrolável nessa “arte de falar consigo mesmo e com os outros que é o escrever”. Às vezes, você precisa voar – e escreve, escreve, escreve. Em outras, não consegue sair do chão e não arremata uma linha sequer que faça sentido.

Muitas vezes, a criatura (o tema) se impõe ao criador (o autor) imperiosamente. Mesmo que ele tente fugir para outros mundos e assuntos não conseguirá ir muito além.

E querem saber?

Só vai voltar a ser feliz quando tirar esse espinho da garganta e 'encarnar' em texto os fantasmas que lhe assombram e – vejam o contra-senso – libertam.

Foi um pouco dessa realidade que me trouxe a visita aos cômodos em que Cervantes habitou em Valladolid, onde, dizem, deu retoques finais a obra magna da Literatura Universal: Dom Quixote.

A Espanha vivia tempos difíceis. O reinado de Felipe III dava sinais de decadência, assolado por um suceder de guerras vãs. O próprio Miguel de Cervantes Saavedra enfrentava lá seus percalços. Saíra de Sevilha para Valladolid para escapar a pendengas judiciais e financeiras. Na então capital do reino se viu diante de uma pesada acusação criminal. Próximo à sua moradia apareceu o cadáver de um homem que teria sido assassinado, segundo a polícia, por estar envolvido com a irmã ou uma das duas filhas de Cervantes.

Aflições e tanto a fustigar a tranqüilidade de qualquer um. Nada, porém, que o impedisse de viver o melhor dos mundos na modesta casa. Onde, aliás, se refugiava toda vez que sentava-se diante da ampla mesa de madeira maciça e transformava em livro os delírios do herói de La Mancha.

 

 

 

 



Escrito por Rodolfo C. Martino às 09h37
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Blog Day

Virei blogueiro assim como me tornei, primeiro, jornalista e depois cronista de jornal. Um tanto ao acaso – ou seria obra de um tal Sr. Destino? Outro tanto pela incontrolável sedução que tenho por enfileirar letrinhas uma após a outra, uma após a outra até chegarmos a uma bela história. Na verdade, relatos que, sei lá por quais motivos, cismo de contar. Relatos que, a partir do blog, tomaram uma liberdade nunca dantes experimentada por mim. Partem de fatos que vivi, observei, ouvi,  imaginei, pressenti, requentei, refleti, interpretei a partir de uma conversa, um olhar, uma emoção.

 

Neste espaço, ganham vida própria. Vem e vão para onde bem entendem.

 

Às vezes, eu mesmo me surpreendo com as histórias que lhes conto.

 

Há dois anos estou nessa vida; desde março aqui no Uol, onde agora mesmo estou para encerrar uma série que trata das viagens que fiz.

 

Tento postar todos os dias – e quase consigo. Posso lhes dizer que é um momento único. Outro momento legal é ler o comentário de vocês sobre o que lhes narrei. Não são muitos, é bem verdade. Mas, como diz o dito popular, me parecem são sinceros e postados de coração.

 

Li que hoje – 31 de agosto – é o Dia Internacional o Blogueiro, o tal Blog Day que possui um link exclusivo (Vejam na home do Uol, com o título “Blogueiros recomendam blogs”).

 

Consta ser praxe nesse dia recomendar cinco blogs para que a rede se espalhe ainda mais.

 

Então vamos lá:

 

01.  Blog do Mino Carta que, mesmo desativado, leio e releio todos os dias para entender um tanto mais o Brasil de hoje.

02.  Blog de Trivial ao Fenomenal, da amiga e ex-aluna Bárbara Paludetti, que trata de gastronomia – e ando numa fase glutona.

03.  Blog do PVC, do Paulo Vinicius Coelho, o mais importante jornalista esportivo da atualidade. Que, aliás, amanhã estréia uma coluna na Folha de S. Paulo.

04.  Blog dos Quadrinhos, do jornalista Paulo Ramos que também sabe tudo no gênero.

05.  Todos os livros de Mário Quintana. Explico: o poeta gaúcho foi o criador da linguagem blogueira antes mesmo de os blogs existirem. Basta conferir para ver. Seu texto é sucinto, ágil, informa e sensibiliza. Muitas vezes, uma só frase diz o que linhas e linhas de texto tentam em vão explicar.

 

Um exemplo para confirmar o que lhes disse:

 

Gestos

 

De Mário Quintana

 

A mão que parte o pão

A mão que semeia

A mão que o recebe

- como tudo isso seria belo se não fosse os intermediários

    

 

 

 



Escrito por Rodolfo C. Martino às 11h42
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




A tal história

Relatos de viagens - 47

 

 

Desde a mais tenra idade, ouço dizer que existem.

Acho que foram meus próprios pais quem delas me falaram pela primeira vez. Ou terá sido minhas irmãs, ávidas por encher de fantasia a cabeça do irmão caçula?

Enfim...



Eram tantas e tamanhas as tais proezas que, posso lhes dizer agora, houve um tempo que preferia nem ouvir falar das mesmas.

Verdade.

Suas representações em livros e enciclopédias ilustradas lançavam mais temores do que, a mim, esclareciam.

Cresci – e acabei me esquecendo do mito e dos medos.

Não me recordo se cheguei a vê-las, ao vivo e em cores, em algum zoológico da vida.

Certamente, se as vi, não me causaram tanto impacto como agora aconteceu.

Fiquei assim estarrecido. E disse para mim mesmo:

-- Ah! É daí que vem a tal história, então. Faz sentido. Faz sentido...

Me desculpem o delírio.

Estou aqui a tergiversar com o teclado e a tela – e mal lhes informei de quem estou falando. Devem mesmo me achar um tantã. Não lhes tiro a razão.

Falo das cegonhas. Pois é, delas mesmo.

Em penas, bicos, carnes, ossos, pernas longas – e ninhos que, aliás, são enormes e estão lá nos pontos mais altos, junto às cúpulas e as torres das catedrais e castelos da Espanha.

A cena era comum em pelo menos quatro cidades que visitei: Segóvia, Ávila, Salamanca e Valladolid.

Ao que pude observar, as cegonhas têm uma predileção especial por igrejas.

O fato talvez reforce a lenda de que são as responsáveis pela chegada das crianças ao mundo. Na verdade, nem sei se os pais ainda usam esse folclore para explicar o inexplicável. No entanto, ao vê-las, em pares, a supervisionar o ninho que parece um cesto de palha, com bojo arredondado --, reforça-se o conceito de família e dá mesmo para acreditar que são as mensageiras do futuro.

Os turistas se encantam com a cena. Dá-lhe flashs e fotos. A fêmea mais próxima ao ninho e o macho, em alerta, não distante dali. Lá no alto. Às vezes, se põe a desafiar o vento e os rigores do inverno e equilibra-se em uma só perna na ponta mais fina "agulha" da torre que se projeta para o céu. Vigia, intrépido que é, a tranqüilidade do lar doce lar.

Repito. Dá até para acreditar: são os primeiro seres terrestres a nos levar no bico.

Depois, vale reconhecer, crianças ou não, vida afora nos acostumaremos com a sina...

 

 



Escrito por Rodolfo C. Martino às 08h52
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O magnata triste

Relatos de viagens - 46

 

Quando eu lá cheguei numa tarde qualquer de janeiro, a fama do homem já corria solta e logo chegou aos meus ouvidos. Tratava-se de um magnata espanhol, provavelmente um empresário excêntrico. De idade incerta e ares circunspectos. Todo mês ele aparecia pelo charmoso Hotel de San Polo, na cidade de Salamanca. Ficava um, dois dias – e, tão silencioso quanto chegava, partia sem maiores explicações.

Havia um tom de mistério que a todos instigava.

Diziam que o hospede vinha ‘pagar’ uma promessa, pois passava horas a caminhar pelo que restou da igreja de San Paolo.

Preciso lhes explicar.

Este hotel foi construído no espaço onde existiu o templo que desmoronou lá nos antigamente. Num oportuno projeto arquitetônico, parte dessas ruínas foi preservada e está acoplada ao estabelecimento em forma grande área livre que, em dias ensolarados, serve de terraço para os hóspedes.

Acrescente-se que o piano-bar e a cafeteria do hotel têm saída para o local.

Aliás, foi por uma dessas portas que vi o tal entrar a escapar  dos rigores do inverno espanhol na manhã seguinte.

Intui que fosse ele.

Intui também que talvez eu estivesse a ponto de desvendar o propalado mistério.

Não era uma questão religiosa.

Não eram questões de trabalho.

Menos ainda eventuais lembranças de quem ali viveu nos tempos de estudante (afinal, a cidade tem uma das mais tradicionais universidades européias).

Lembrei dos ensinamentos do amigo Nasci na velha redação de assoalho de tábuas largas. Quando algo não se encaixava como seria o natural, ele diagnosticava:

-- Esse chão pode afundar agora, se eu estiver errado. Tem mulher na parada.

Desconfio que a redação permanece lá ainda hoje.

Ele não errava.

Particularmente, também apostei nessa linha de investigação.

Um romance clandestino. Me preparei para ver surgir uma bailarina flamenca. Ou mesmo a insinuante mulher de algum toureiro. Sei lá...

No entanto, tudo clareou rapidinho. Bastou observar o modo “pidão” com que o senhor olhou para a moça da cafeteria ao solicitar “um expresso na mesa”. Sentou-se num lugar estratégico – ainda a olhá-la – e esperou, digamos, esperançoso, que ela fosse servi-lo.

Não lhe tirei a razão na hora – e agora..

A bem da verdade, era uma mulher bonita, de traços finos, que lembrava a atriz Penélope Cruz quando mais jovem. Tinha um jeito simpático e o uniforme marinho lhe caía super bem. Era obviamente uma moça elegante. Só o não abotoar o primeiro botão da blusa já lhe dava um toque todo especial e quebrava toda a rigidez da roupa de trabalho.

Fazia jus a atenção que, indiferente, recebia.

Para ser franco, estou certo que nem ela se dava conta da situação.

Continuava por ali a organizar copos e talheres, a cuidar do balcão, a tirar o café do homem que, de resto, mostrava-se embevecido, apaixonado.

Tão embevecido que se assustou ao ouvir o som da sineta que ela própria fez soar.

Logo apareceu um latino gorducho – para mim, era boliviano – envergando um smoking de garçom, cabelo negro penteado todo para trás, endurecido à base de gel.

Reparei que ele também era só sorriso para a moça.

Não disse palavra. Pegou a bandeja e foi servir o magnata. Que não gostou nada, nada da troca. Aliás, me pareceu gostar menos ainda dos trelelês que os dois – o boliviano e a moça – engataram. Estava implícito na conversa um alegre jogo de sedução.

Que desconforto.

Vi o homem tomar seu expresso rapidamente e, me pareceu, algo contrariado, sinceramente entristecido.

Notei até um olhar de desconsolo naquele próspero empresário. Coisa passageira é verdade. Mas, tenho certeza: ele daria todos os euros do mundo para estar, mesmo que por instantes, na pele do boliviano gorducho, prestes a cair nas graças da morena que lhe era inacessível...

 

 



Escrito por Rodolfo C. Martino às 11h53
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O sorveteiro e os meninos

Relatos de viagens - 45

 

Não escrevo este post para culpar o homem, menos ainda os meninos.

Se eles agem assim, é triste, eu sei, mas é porque assim a vida os ensinou a ser.

Um triste retrato deste Brasilsilsil.

I.

Foi há dois anos em Maceió. Não lembro o nome da cidadezinha que fomos visitar. Mas, não tem importância. Era um daqueles passeios convencionais que todo turista faz quando está por ali. A paradisíaca praia, também não lembro nome, é a atração dos bacanas. Repete o cenário tão comum no nordeste brasileiro. Alguns restaurantes para receber paulistas, cariocas, mineiros, gringos. Poucos estabelecimentos comerciais que vendem para os mesmos artesanatos e produtos típicos. E, se esticarmos os olhos pelos arredores, uma pobreza só.

Uma figura se destaca nessa paisagem. Aliás, duas.

Os sorveteiros e os meninos.

Há o calor abrasador que colabora para o esquema – mas, ao que me consta, este é característico do local, e ainda não foi corrompido.

II.

A jogadinha é simples.

Chegam a turbas de turistas em ônibus, em vãs ou em carros particulares. Os sorveteiros se posicionam estrategicamente para ficar em nosso caminho.

E aí. É inevitável. O homem anuncia o produto, geladinho, de frutas típicas. A garotadinha nos rodeia em bandos também a pedir sorvete. Custa um real. Tão pouco. Estamos de férias, felizes, sem lá grande controle da grana. Que, de resto, não vai nos fazer falta alguma. São crianças estão ali. Somos generosos e tal...

Compramos.

Para eles e para nós, que não somos de aço.

III.

O menino ou menina pega o sorvete e sai correndo. Aparentemente tão felizes quanto qualquer garoto da cidade quando ganha um picolé.

Nós seguimos nosso caminho para a praia. Vamos saboreando os tucupis e os tacacás da vida, crente que somos “os caras”. Alma lavada pela solidariedade e enxaguada naquele belíssimo mar de águas verdes.

Quanta ingenuidade, a nossa.

IV.

Assim que ficam desertas as ruelas que beiram a praia, a garotada reaparece. Trazem os sorvetes intactos, ainda na embalagem, e devolvem ao sorveteiro que os coloca outra vez no isopor com gelo. Serão revendidos na próxima leva de turistas ou mesmo quando nós, otários, cansarmos de brincar de bacana e voltarmos da praia.

O ir e vir dos garotos lhes rende uma moeda de 5 centavos por ação – e nenhum sorvete no fim do dia.

V.

Mesmo sabendo da trapaça, não consigo condena-los pelo “cambau” que dão nas sorveterias – que paga uma mixaria pelo trabalho do sorveteiro – e nos incautos turistas, que enfim nada perdem.

Mas, nem sei o porquê lhes conto isso hoje.

Talvez para não falar da jovem que ficou nove anos encarcerada.

Ou dos 4.500 trabalhadores rurais que viviam escravizados em fazendas no Pará.

Ou do brasileiro que teve o corpo inteiro marcado a ferro quente porque tento fugir de uma dessas fazendas.

VI.

Talvez porque todas essas situações refletem um triste retrato deste Brasilsilsil. Um retrato que – nós, os privilegiados – fingimos não existir...

 

 



Escrito por Rodolfo C. Martino às 13h23
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




El Bigodon

Relatos de viagens - 44

 

Foi em Santiago de Compostela.

Cansados do dia de andanças pelos arredores da Catedral de Santiago, onde chegam os peregrinos, resolvemos esticar até um centro comercial nos limites da cidade.

Na Europa – inclusive, na Espanha onde estávamos há alguns dias – não existe essa cultura de shopping center como no Brasil e nos Estados Unidos, e os tais centros de comércio e entretenimento lembram as antigas lojas de departamentos que tanto sucesso fizeram por aqui nas décadas de 50 e 60. Era chique comprar no Mappin, em A Exposição/Clipper, na Sears, Pirani e congêneres.

Hoje, por aqui, a ordem é todos ao shoppings.

Mas, de volta à Espanha.

Naquele fim de tarde, tomamos um ônibus que nos deixou em frente ao imponente - mas, não luxuoso - centro comercial.

A calefação do lugar estava próxima aos 30 graus – o que contrastava com o frio de 3 graus que enfrentamos o dia todo na rua.

Estranhamos.

Logo arrastávamos nossos capotes loja a dentro. Não assimilamos o contraste entre as duas temperaturas.

Tanto que bastaram uma dezena de minutos para desistirmos da nossa expedição consumista – e acatamos felizes a sensata idéia de voltarmos de táxi para o hotel, não muito distante dali. Diria que alguns minutos de automóvel, mas longe o suficiente para tentarmos outra caminhada.

Bastariam poucos euros – quatro ou cinco, no máximo.

Foi o que fizemos. Dentro do luxuoso Pegeaut, com GPS e o escambau, orientamos o motorista sobre o endereço para onde íamos.

-- Hotel Congresso, ok?

Linguagem mais universal que esta impossível.

-- Ok, respondeu o motorista.

Bastaram alguns minutos para estranharmos o caminho que o home de bigode estiloso estava fazendo. Brasileiros que somos, logo entendemos a jogada. Mas, ninguém ousou questionar o itinerário. Vai que El Bigodon sabia de umas quebradas que desconhecíamos. Afinal, éramos turistas.

Bom, o mistério logo se dissipou.

Em minutos o carrão parou à porta de luxuoso hotel, que, diga-se, não era o nosso. Em frente ao tal, um prédio antigo, grandioso e bem-cuidado. Acho que era a Assembléia ou a Câmara Regional lá dos amigos galegos – Santiago fica na região da Galícia.

Era a hora exata de gastar meu portunhol.

-- Não és cá. Sigamos para Hotel Congresso, Hotel Congresso, onde ai uma estradita, um caminho. Comprendiô?

Não sei qual o santo que fez o milagre. O próprio São Tiago, é bem provável. El Bigodon compreendeu -- não me perguntem como -- o que tentava dizer. E se explicou: entendeu que queríamos ir para o hotel em frente ao Congresso ou coisa do gênero. Resmungou algo inteligível e manobrou o Peageaut 406, agora sim no destino certo.

Fiquei cismado.

Digo ou não digo que foi um golpe. Explico para o motora que sou brasileiro e não português ou italiano – e que, na minha terra, esses golpes são manjadíssimos. Que não sou otário e não vou pagar mais do que 4 euros.

Pensei e repensei.

Compro ou não compro essa briga em terra estranha?

Não foi preciso, meus simpáticos leitores.

Acalmem-se.

Assim que passamos diante do centro comercial, onde havíamos tomado a condução, El Bigodon zerou o taxímetro por vontade própria.

Quando chegamos ao Hotel Congresso, minutos depois, ele anunciou a tarifa: 4 euros. E ainda desculpou-se pelo equívoco.

(* Amanhã vou lhes contar a versão brasileira de uma história muito parecida com a de hoje.)

 

 



Escrito por Rodolfo C. Martino às 12h40
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Unidos de Burgos

Relatos de viagens - 43

 

O desfile do Dia de Reis foi outra festa que me chamou a atenção na Espanha. Lá e em boa parte da Europa, comemora-se no dia 5 de janeiro, quando há a troca de presentes que aqui acontece na véspera do Natal.

Pensei com os botões do meu velho sobretudo:

Faz sentido.

Na tradição cristã, foi nesse dia que os Reis Magos chegaram na estrebaria onde estava Jesus e o presentearam com mirra, incenso e ouro. Salienta-se também o aspecto comercial em si. As lojas ganham mais alguns dias para a farra das compras que, pelo que reparei, por lá não é tão voraz como por aqui.

Enfim...

A grande comemoração de reis na Espanha – pude saber – é em Madri. Dizem que o desfile é soberbo e tem inúmeras atrações. Culmina com chegada dos magos personificados, um a um, em seus carros alegóricos, a jogar balas e caramelos para adultos e crianças na platéia.

Neste ano, dia 5 caiu num sábado – e eu estava em
Burgos, uma das tantas cidades medievais que visitei. Percebemos a aglomeração das pessoas ao longo de algumas avenidas e ruas e lá ficamos, atentos, sob a proteção de El Cid, o bambambã local, com estátua em praça pública e tudo mais.

Ameaçou chover.

Os espanhóis firmes.

E nós também.

Seis da tarde já é noite por lá nessa época do ano. O frio, portanto, aumenta – mas resistimos bravamente. Pés doendo, algum desconforto e duas horas depois começam a aparecer as insólitas atrações: malabaristas, engolidores de fogo, ciclistas malucos, enormes balões de ar em forma de peixes manuseados por artistas populares, bizarrices para todos os gostos e tamanhos.

Inclua-se aí o que chamei de Unidos de Burgos – a saber, uns oito ou nove batuqueiros, jeitão de brasileiros atravessando o ritmo e arrebentando tambores e tamborins. À frente do que imaginei ser nossos compatriotas, uma esforçada rainha de bateria made in Spain que parecia sambar descalça sobre uma chapa quente.

Aplaudi entusiasmado.

Não pelo samba no pé da moçoila, menos ainda pelo minúsculo biquíni que exibia. Mas, porque – reparem – brasileiro no Exterior se emociona e se derrete todo por qualquer coisa que se refira ao Brasil. Basta ver a amarelinha pirata na banca de algum camelô pros olhos marearem e encherem d’água...

É verdade ou não é?

 

 

 



Escrito por Rodolfo C. Martino às 07h50
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Noite Velha

Relatos de viagens - 42

 

Há dias deixei estrategicamente exposto sobre a minha mesa de trabalho o bloco com anotações da viagem que fiz a Espanha em dezembro e janeiro. Como vocês já devem ter percebido, a idéia é que, na falta de uma boa idéia, lance mão das histórias que vi e/ou vivi por lá. Aliás, quem me acompanha, neste modesto espaço, sabe bem o quanto gosto de fazer esses relatos. Vacilou e cá estou eu a “viajar” nos recuerdos de minhas andanças mundo afora – que não são tantas quantas eu gostaria. Não que viva grandíssimas aventuras – faço os passeios normais de quase todos os turistas – mas, viajar é um grande prazer e – entendam! – também é muito bom reviver aqui esses momentos, transformá-los em textos e dividir com vocês esse caminhar. Aliás, já lhes disse, em posts anteriores, que nessas excursões o que mais se faz é caminhar. O que se anda vale por algumas maratonas.

Mas, do que falava mesmo?

Ah, sim, do meu bloco de anotações.

Pois é, meus caros, tenho aqui alguns temas. No entanto, não consigo ir além de parcas linhas em cada um deles. Talvez tenha me entusiasmado demais na hora – e hoje, com a criatividade em baixa, não consigo desenvolvê-los.

Por isso, vou tentar reuni-los aqui em tópicos.

Começo com a denominação que os espanhóis dão para o 31 de dezembro. Chamam de Noite Vieja, o que em nada modifica o entusiasmo com que comemoram a passagem do ano. A impressão que tive é a de que lá se reverencia muito mais o ciclo que se conclui do que propriamente se planeja o ano que virá, como aqui acontece.

Uma sutil diferença.

Estava em Segóvia e vi a euforia das pessoas nas ruas. O tom da alegria era dado por uma banda de jovens uniformizados que tocava canções tradicionais enquanto seguia célere pelas ruas e praças do que lá chamam de Centro Histórico.

Havia um clima de encantamento que a todos inebriava – inclusive, e principalmente, a nós, estrangeiros...

Amanhã tem mais...

 






Escrito por Rodolfo C. Martino às 09h48
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O flautista

Relatos de viagens - 41

 

Não tenho o que reclamar
da chuva que castiga a manhã...

Segundo alguns amigos, esses torós
estariam à minha espera em Santiago de Compostela,

quando ali aportei no Natal de 2007
para uma breve estadia.

Recomendaram:

"Nesta época, chove muito naquela
região. Leve capa e guarda-chuva."

Não levei – e não choveu.

II.

Fez um frio suportável, diria.

Bastou o bom e velho sobretudo
para que tirasse de letra
as baixas temperaturas locais.

Aliás, houve até tardes ensolaradas
em que fui obrigado a levar
o casaco e a blusa de lã nas mãos,
enquanto caminhava sem rumo certo.
Em um desses périplos, alcançamos
o Parque das Alamedas, uma simpática
área verde – não tão verde assim
no inverno --, com jardins, bancos,
coreto, estátuas e patos
a nadar num pequeno lago

de águas escuras.

Ou seja, tudo o que possuem
os tradicionais parques europeus
e suas cópias mundo afora.

III.

Estávamos exaustos da caminhada
e descobrimos logo ali, do outro
lado da rua, uma cafeteria
com mesas e cadeiras espalhadas
pela Plaza de Figueroa.

Chance única de nos largar
ao sol, depositar os casacos
nos cabideiros e beber algo.

Um ‘expresso’ que fosse
nos daria a oportunidade de
lá ficar por horas a fio,
se assim o desejássemos...

Foi o que fiz.

 

Pedi um café e uma água.
E me dispus à contemplação.
Uma das coisas que mais gosto
quando viajo. Deliciar-me sem
nada a fazer, sem tempo,
sem compromisso. Apenas e tão
somente a olhar o movimento
das ruas, das pessoas,
dos arredores.

Viscejar, eis o termo.

IV.

Pois estava largadaço no meu
canto, pensando nas agruras dos
seis peregrinos que chegaram naquela
manhã à Catedral de São Thiago –
fazer o tal caminho é uma pedreira
em tempo normal, imaginem
no inverno! – quando ouvi
a música ao longe.

 

Gradativamente, o som se fez mais
e mais próximo. Era um tema erudito
que não consegui identificar. Mas, logo
percebi que seria desnecessária
tal informação. Apareceu um desses
músicos de rua que por si
só valia o espetáculo.

Que figuraça!

 

V.

Pensem num flautista de priscas
eras. Pois, era tal e qual.

Esquelético, cabelo cortado à moda
Pigmalião – talvez um exemplo
mais atual, mas não tão atual, seria
lembrar o estilo Chitãozinho
e Xororó no início da carreira –
um baita narigão a se destacar
do rosto pálido e triangular.

Vestia-se inteiramente de preto
com roupas justas e botas de cowboy,
também pretas. Trazia um chapéu
-- preto, óbvio – enterrado na cabeça
que só tirava para fazer a coleta de
moedas entre os freqüentadores do Café.

Uma figuraça, como disse. 
 
 VI.

 

Enquanto tocava, ele nos divertia
com passos desajeitados de
uma dança esquisita, mas, ritmada
que, imagino, o próprio
flautista deveria ter inventado.

Assim o homem saracoteava entre
as mesas, chamando a atenção de todos.

Depois de alguns minutos,
o inefável passar o chapéu.

VII.

Na Europa, esses músicos de rua
são comuns. Ali mesmo, em Santiago,
havia um guitarrista de blues ao lado
da Catedral. Em Madrid, vi um violinista
com um irrepreensível repertório
entre o clássico e o popular.

Creio que foi em Pamplona que
encontrei um senhor a tirar sons
celestiais de copos enfileirados,
afinados unicamente pelo volume
de água que continham. Ele passava
a mão sobre a borda dos copos
delicadamente e surgiam os acordes.

 

Já havia visto coisa parecida
em algum circo, quando ainda
era criança – põe tempo nisso.

Mas, o flautista me pareceu único.
Pela performance, pela expressão
de duende, pelo encanto daquela
tarde de sol tão longe de casa.

VIII.

Ia solto em meus devaneios e,
de repente, o chapéu do flautista e
o próprio balançaram à minha frente,
numa clara alusão do que queriam.

Moedas, moedas, moedas...

Não me fiz de rogado.

Enfiei a mão no bolso da calça
e lhe dei todas as que tinha.

Registre-se que não eram muitas
(três) e, é provável, de pouco valor.

 

O homem fez uma expressão
de tédio e horror, disse umas palavras
em galego que nada entendi
e foi-se embora, tocar sua flauta
em outra freguesia.

 

IX.

O idioma galego é bem parecido com
nosso. Troca-se o J e o G pelo X,
mas tudo bem. Se a xente prestar
atenção até que entende alguma
coisa sem precisar ir ao coléxio.

Mas, do xeito que o homem
esbravexou, naquele dia,
Virxem Maria, vai saber
o que teria dito...

Tenho certeza, porém, que sobrou
pra mim, de mão-de-vaca pra baijo.
Só não sei se bronqueou apenas
comigo ou foi um pega xeral.

Na verdade, até hoxe, não aprendi
como se diz muquirana em galego. Mas,
seguro, foi algo assim que ele disse
e olhou feio para todos nós...

 

 

 

 



Escrito por Rodolfo C. Martino às 08h15
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Dona Culpa (cont.)

Relatos de viagens - 40

 


IV.

Por dever de ofício, alguns esclarecimentos:

* Muito das minhas andanças nesses dias de Holanda e Bélgica resultaram num texto maneiro que escrevi tempos atrás: A Filha Mais Nova do Seo Libório, que está no ícone Parangolés, data de outubro de 2006. Para ser mais exato, a idéia nasceu em uma cantina em Amsterdã ao observar uma moça – provavelmente estrangeira – a atender as mesas e cuidar da cozinha ao mesmo tempo. Fiquei impressionado...

* No Festival Internacional da Canção de 68, que a Globo promoveu de 1967 a 1971, Caetano Veloso defendeu, ao lado dos Mutantes, a música É Proibido Proibir. Classificou-se na eliminatória realizada no Teatro da PUC, em São Paulo - e se apresentou para um Maracanãzinho lotado. As vaias foram unânimes e implacáveis. Os Mutantes, em protesto, tocaram de costas para a platéia. E Caetano fez um discurso inflamado. A certa altura, disse: "É esta a juventude que deseja tomar o poder neste país. Se vocês entenderem de política o que vocês entendem de estética, estamos f..." E abandonou o palco...

* O Festival da Tupi foi mais uma das tantas tentativas para ressuscitar a moda dos festivais que a TV Record consagrou nos anos 60. Outra vã tentativa...

* Quem ganhou foi a música “Quem Me Levará Sou Eu”, de Dominguinhos e Manduka, defendida pelo cearense Raimundo Fagner.

* Soube do resultado assim que os jurados saíram da sala do julgamento. Minutos depois, encontro Fagner sozinho num canto da coxia. Perguntei o que achou da vitória ou coisa do gênero. Ele ainda não sabia do resultado. Mostrou-se surpreso, chegou a duvidar. Mas não esboçou qualquer comemoração: “Gosto mesmo é de cantar - e só."

V.

Ontem encontrei um bom amigo, depois de tanto tempo.

Ele me disse:

-- Você escreveu a Despedida de Solteiro, lembra?

Claro, aquiesci.

-- Então, agora escreva a Despedida de Casado...

Como assim, perguntei?

E mostrou a mão esquerda. Sem aliança...

É da vida, e dos amores...

Gostaria que não fosse assim.

VI.

Ah! o refrão da música de Benjor era simples, mas dizia tudo.

"Dona Culpa ficou solteira
Porque ninguém quis casar com ela."

 

 

 

 



Escrito por Rodolfo C. Martino às 11h09
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Dona Culpa

Relatos de viagens - 39

 

Caetano saiu o palco sobre as vaias...

Foi no longínquo ano de 1979, durante a final do Festival de Música Popular, organizado na extinta TV Tupi. O baiano defendeu uma composição surreal do surreal Benjor. Chamava-se “Dona Culpa Ficou Solteira”. A platéia não entendeu, e não gostou. Não considerou sequer o suingue natural das músicas benjornianas e caiu na vaia.

Pelo retrospecto de Caetano em festivais, todos ali ficaram temerosos. Mas, Caetano levou aquele anticlímax numa boa. Saiu sorrindo e, nos bastidores, foi abordado por uma repórter da própria emissora. Ela imaginou jogar lenha na fogueira, mas foi infeliz. No afã da pergunta, trocou o “sob” pelo “sobre”.

-- Caetano, o que você achou de sair sobre vaias do palco?

-- Achei exatamente isso, minha filha. Saí SOBRE as vaias. Porque sou maior do que tudo isso...

Fim da entrevista.

II.

Só ontem, ao me desfazer do bloco de anotações em que registrei minhas impressões da viagem de 2004, percebi que não dei fim às histórias que narrei aqui nesses últimos quatro ou cinco dias. Me culpei porque, afinal, cuido do meu leitorado. Será que há alguma expectativa dos meus afáveis cinco ou seis leitores pelos últimos quatro dias de andanças? Ou o que aqui registrei já está de bom tamanho?

Outra cisma é o tamanho do apagão que dei na reta de chegada. Devia estar esbagaçado e/ou achando tudo sem graça?

Respondo: É válida a primeira observação – viajar é ótimo; mas, em determinado momento, você se sente em cacos. A segunda, nem tanto. Lembro que, em determinado dia, andei ao gosto do vento em Brugges e, em outra ocasião, me perdi num parque lindíssimo em Amsterdã, ao lado do Museu de Van Gogh.

Que me perdoem os politicamente corretos, mas troquei a visita às obras do pintor pelo caminhar a esmo naquele parque. Não me peçam explicações. Nem me vaiem ou culpem porque não sou Caetano e não saberei flanar sobre a bronca de vocês.

III.

Vou lhes confessar. Tem hora que cansa cumprir o sacrossanto papel de turista. Preferi fazer parte daquela paisagem. Olhar as crianças que brincavam apesar do frio pouco acima de 3 graus. Resistir ao semblante de um céu acinzentado e triste. Andar SOBRE os caminhos abertos na neve com a sincera impressão de não ter hoje, nem amanhã...

Um chocolate quente no quiosque completou a plenitude daquela manhã de sábado. Que se perdeu no tempo, mas não na minha lembrança.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 10h48
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Homem

Rodolfo Carlos Martino é mestre em Comunicação Social. Leciona na Universidade Metodista, onde responde pela coordenação do curso de jornalismo, desde 2005. Foi diretor de Redação de Gazeta do Ipiranga por 28 anos. Autor do livro "Às Margens Plácidas do Ipiranga".

Histórico
Outros sites
  site do Rodolfo C. Martino
  Livro: Às Margens Plácidas...
  Parangolés (contos)
  A Casa de Rubem Alves
  Mario Quintana
  Mino Carta
  Do trivial ao fenomenal
  Blog do Lovatto
  Blog do PVC
  Blog do Juca
Votação
  Dê uma nota para meu blog



O que é isto?