Marceleza, Rita e o vacilão...

 

-- Você, hein, meu querido! Que boca bendita, rapaz...

 

Depois de certa idade, a gente até estranha quando alguém não lhe chama de senhor. Mas, logo que percebi que toda aquela gritaria é comigo embora há alguns bons anos não seja mais um rapaz por força de um obstinado senhor chamado Tempo.

 

Entre incrédulo e feliz, reconheço o meu inesperado interlocutor.

 

É o Marceleza, amigo que, custa a aparecer, mas quando aparece sempre me surpreende.

 

Desta vez, o carioca de Caraguatatuba (explico: nasceu no Litoral Norte, mas viveu um bom tempo no Rio) se diz um leitor atento das bobagens que escrevo.

 

Para provar o que diz, assegura que o motivo da ponderação acima é o comentário (ou a falta de) que fiz sobre a despedida de Rita Lee dos palcos, dias antes da cantora se apresentar em Sergipe.

 

“Não disse nada de mais”, justifico.

 

“Disse apenas que há tempos não vou a shows – da Rita, então, faz décadas”. *

 

-- Meu querido, nem vem de garfo que hoje é dia de sopa. Quem te conhece que te compre. Com esse desinteresse todo você azarou o adeus da titia roqueira.

 

Não sei de onde o Marceleza tirou essa conclusão, um tanto lúdica, outro tanto mística.

 

Tento explicar que uma coisa nada tem a ver com a outra.

 

Só não tenho mais a pachorra de assistir aos espetáculos musicais. Até porque durante vinte e tanto anos era que mais fazia na vida, visto que escrevia duas ou três reportagens por semana sobre os cantores/compositores que se apresentavam em Sampa.

 

“Hoje a única pressa que tenho, amigo, é de voltar para casa”.

 

Não sei se o convenci.

 

Quando o Marceleza cisma, sai de baixo.

 

Seja como for, ele tem sempre uma boa sacada para derrubar qualquer argumento.

 

-- Que pena, Peixe. Estou com uns ingressos sobrando para o show que o grande Chico Buarque faz em março, em São Paulo. Sabe, aquele show que está com a lotação esgotada desde o final do ano passado, pois é... eu queria presenteá-lo. Como você disse que não está nem aí para esses eventos, vou ter de convidar aquela sua sobrinha que, diga-se passagem, é mó piteuzinho. Vacilou, cumpadi...

 

Ah!, se arrependimento matasse.

 

Mesmo assim, ainda resta uma esperança, meus caros.

 

Mal sabe o Marceleza que a moça só gosta de Luan Santana, Michel Teló e que tais...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 21h38
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Herivelto

      

No país que exporta Michel Teló pode parecer uma heresia lembrar que hoje – 30 de janeiro – completa-se o centenário de nascimento do cantor/compositor Herivelto Martins.

Antes de continuar reverenciando vida e obra de Herivelto, deixo claro que não tenho qualquer restrição ao brega-pagode-sertanejo forrozado de Teló e similares.

É sucesso no mundo todo e tal. Ou seja, deve ter um perequetê qualquer que eu, na virada dos 60, modestamente não consegui entender.

Nem pretendo.

Gostaria, sim, de entender o motivo que leva este Brasilzão de meu Deus deixar passar em brancas nuvens uma data tão relevante.

Versos e canções de Herivelto  e seus parceiros embalaram um rico momento da história brasileira. “Ave Maria no Morro”, “Caminhemos”, “A Camisola do Dia”, “Carlos Gardel”, “Covarde”, “Atiraste Uma Pedra”, “Cabelos Brancos” são alguns dos títulos que marcaram as décadas de 40 e 50, a chamada Era de Ouro do rádio.

Há coisa de dois anos, e por breves semanas, a obra e a vida de Herivelto voltaram a ocupar espaço na mídia. A Globo levou ao ar a minissérie “Dalva e Herivelto”, mostrando um pouco do glamour daquela época e, sobretudo, o explosivo relacionamento amoroso entre a cantora e o compositor.

Adriana Estevez e Fábio Assunção foram os protagonistas, com notáveis interpretações.

Por um momento, imaginei que teríamos um revival daquelas canções – até pelas fortes emoções que propiciava o entrecho da trama.

Ledo engano, deste tolo escriba.

Se não me engano, o hit da vez, o tal do Reboletions – lembram? – passou como um trator por cima de toda e qualquer proposta de recuperação do romantismo de outrora.

Vida que segue...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 16h57
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Gênova

 

 

Voltei encantado de minha primeira visita a Gênova.

 

É uma daquelas cidades que nos deixa tão à vontade que, por vezes, imaginamos estar em nosso próprio pedaço de chão.

 

Diverti-me com a sensação de que poderia viver ali pelo resto dos meus dias numa boa, sem precisar correr tanto atrás do ouro, como fazemos em metrópoles como Sampa.

 

Sei que é uma impressão, tola e apressada, de um viajante parvo, como eu, que andou por ali não mais do que cinco dias.

 

Quando fiz esse comentário em uma roda de amigos, provoquei surpresa e comparações.

 

Dei razão a todos.

 

Não sou de discutir.

 

Embora igualmente histórica, Gênova não é a Roma de todos os impérios.

 

Não tem o esplendor de Florença.

 

Nem a elegância de Milão.

 

Também não cultiva o charme de Veneza.

 

Ou mesmo lhe enfeita as cercanias a moldura alva dos Alpes, como acontece com a bela Turim.

 

Como disse, dei lhes dei razão. Mas, não mudei meu jeito de pensar.

 

Adorei o vaivém do porto e arredores.

 

As pequenas cantinas, a altivez do duomo, os becos e a praça central, com enorme chafariz.

 

Achei simpático o monumento a Cristóvão Colombo em frente à estação ferroviária, dando boas vindas a quem chega.

 

Enfim, meus caros, nada que outras grandes e pequenas cidades italianas não tenha – só que ali me soou diferente.

 

Conclui que Gênova não é apenas uma cidade, um porto, um pedaço da Itália.

 

É uma idéia.

 

O sonho de ir além.

 

De apenas existir.

 

De ser efêmero e pra sempre.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 20h32
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Sobre sacolinhas, chinelos e lembranças...

Já lhes disse aqui da minha estranheza com a levada asséptica das redações de hoje.

Escrevi até um livro – Meus Caros Amigos. Crônicas sobre jornalistas, boêmios e paixões – sobre o lado B dos jornalistas de antanho.

Enfim...

Ainda por esses dias lembrei-me de uma história daqueles idos até por força do “disse me disse” que gerou o propalado fim das bolsas de plásticos dos supermercados; hoje, tão politicamente condenáveis quanto os usos e costumes das velhas redações.

Só para ficar em um exemplo básico: todos fumavam – e muito.

Chegar ao recinto na hora do ‘fechamento’ era necessariamente enfrentar a densa névoa que se espalhava sobre mesas e máquinas de escrever.

Falava-se alto e discutia-se acaloradamente por qualquer motivo.

Quando baixava uma página para a oficina, um sonoro berro deixava todos informados de a quanta andava a edição.

- DESCE A TRÊS...

Ao leigo, aquilo era a sucursal do inferno.

Para quem viva disso e por isso, era o que chamávamos de vida.

Todo esse intróito (gostaram do refinamento do vocabulário) é para falar de um dos nossos, o Geraldo. Jornalista de mão cheia – e pé de chinelo, como costumávamos provocá-lo naqueles idos e havidos.

Explico logo que a expressão “pé de chinelo” não trazia em si qualquer intenção pejorativa. Apenas descritiva.

Só a empregávamos porque o desacanhado do Geraldo tinha por hábito zanzar para lá e para cá na redação, calçando um par de chinelos desses que os vôzinhos antigos usavam assim que saíam da cadeira de balanço.

Ninguém entendia a mania.

Um repórter de texto elegante, de fino trato para com as pessoas, bastava chegar da rua para tirar o bruto da gaveta de baixo e, antes mesmo de nos brindar com um o bom dia, punha se à vontade com os pés.

Aos poucos, fomos nos acostumando com o andar arrastado do Gera e à pertinácia de sua justificativa:

-- Uns afrouxam o nó da gravata, outros tiram o paletó, quase todos trabalham de mangas arregaçadas. Então, por que eu não posso ficar de chinelos na redação?

Depois, era de emocionar vê-lo, ao fim do expediente, enrolar o par de chinelos em folhas de jornal e acondiciona-lo em uma sacola de plástico – artigo raro à época – para cuidadosamente  guardar o embrulho na última gaveta.

Fechava a dita-cuja gaveta, propalando a frase que se tornou famosa:

-- Missão cumprida.

Pois bem, caríssimos e fiéis cinco ou seis leitores, vejam a historia que uma então inofensiva sacolinha me fez lembrar...

Missão cumprida.

Volto amanhã.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 00h55
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Diante do quiosque...

-- Ei, moço, não é tão difícil assim ser feliz.

 O tom de voz era quase infantil.

 Mas a moça que estava ali à sua frente, e lhe chamava atenção, já não era uma menina.

Passava um tantinho dos vinte, o rosto angulado e belo, e agora lhe sorria docemente à espera de uma eventual resposta enquanto o cabelo de mechas alourado dançava ao vento da manhã.

Ficou surpreso.

Perdera a noção dos minutos – seriam horas? – que estava ali no calçadão em frente ao mar, remoendo o peso dos anos, pensamentos e angústias próprios ao dia cinza, como aquele.

Ajeitou melhor o ray-ban em cima do nariz.

Com o gesto, pensou em ganhar preciosos segundos para entabular uma resposta que impressionasse a desconhecida que já lhe impressionara.

Ela antecipou-se, porém; e se fez ainda mais simpática.

E se fez ainda mais linda.

-- Todo fim de férias é assim. A gente fica pra baixo. É natural.

 “Natural”, repetiu o homem automaticamente.

Como qualquer marmanjo diante de uma bela mulher que lhe apareça assim do nada, deu para imaginar coisas.

Vocês, meus amáveis cinco ou seis leitores, já imaginam quais?

 Pois então...

Quis parecer simpático também.

Retribuiu o sorriso, mas não conseguiu articular sequer uma frase que lhe parecesse minimamente inteligente.

Falar que estava ali, diante daquele quiosque que vende água de coco, apenas para encontrar a turma do futebol, nem pensar.

 Nunca, jamais... Seria o triste fim para a imagem de homem sensível, compenetrado e, quiçá, amoroso que a fizeram tomar a iniciativa da aproximação.

Sim, pois foi ela que se chegou.

E se chegou, bem...

Se foi ela – e foi ela – que puxou o papo é porque estava a fim de...

(...) 

-- Demorei? O mar está sinistro hoje...

Não houve tempo sequer para que o nosso herói terminasse de exercitar a imaginação. Percebeu apenas o vulto do surfista sarado aproximar-se da donzela, tascar-lhe um beijo e abraçados caminharem, em passos arrastado, cidade adentro.

Antes de ir e na frente do namorado-pimpão, ela fez questão de mostrar o quanto ela estava mesmo a fim de melhorar o dia daquele jovem senhor.

 -- Desencana, tiozão. Deixei uma água de coco paga. Vai melhorar o seu dia...

 Mal sabia a moça que agora, sim, o dia havia ido para o saco.

Nem o habitual futebol com os amigos de todas as sextas o livrariam do inexplicável vazio que agora sentia...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 09h20
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Pra não dizer que não falei...

Fico distante do computador quando estou de férias.

Reduzo o uso do celular – e tento viver à moda antiga.

São dias de estio, e preguiça. Sem pressa, afazeres e compromisso.

Nem sempre é possível.

Mas, quando consigo, é ótimo.

Foi muito assim neste fim de ano e início de 2012.

Antes de voltar à lida, porém, é inevitável o compromisso de encarar a pilha de jornais não lidos e a caixa de emails mais do que lotada de mensagens.

É neste momento que, tal e qual em um garimpo, vejo surgir, um a um, os assuntos que movimentaram o noticiário jornalístico por aqui enquanto estive ausente.

Nas mensagens e nas conversas com os amigos/leitores, sou generosamente cobrado para comentar sobre temas como se tivesse algo de relevante a dizer.

Não tenho.

Gosto de contar histórias - a prova, aliás, são esses anos todos de estrada a enfileirar uma letrinha atrás da outra, atrás da outra, da outra.

Nem sempre os palpitantes assuntos que estão na mídia são pautas para este modesto blog.

Mesmo assim tentarei fazer um arrazoado breve do que me pediram os afáveis leitores.

Sobre o barco que virou, lamento informar, mas não entendo nada de carta náutica.

O Marcão está entre os melhores goleiros que vi jogar - e olha que vi gente boa, como Gilmar, Castilho. Que seja feliz nesses novos tempos de aposentadoria dos gramados quanto foi milagreiro, quando defendeu o gol do Palmeiras e da seleção brasileira.

Por enquanto ainda não me interessa o que se passa embaixo dos edredons, nem tenho interesse em acompanhar quaisquer desses realitys da vida.

Rita Lee está se despedindo dos palcos. O que acho?

Há tempos não vou aos shows - da Rita, então, faz décadas.

Quanto à tal de Luiza que não veio, pois estava no Canadá, virou celebridade instantânea e, ao que consta, voltou ao Brasil e viajou de novo para o notável país – estimo que esteja bem.

Por fim, a única coisa que posso lhes garantir com todas as letras é o seguinte:
Verdade verdadeira. A música (?) do Michel Teló é mesmo um sucesso também no Velho Continente...

Pode ser um sintoma da tal crise, mas prefiro não comentar...

 


Escrito por Rodolfo C. Martino às 10h39
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O alerta

O grito rompia o silêncio da madrugada:

 - Acudam! Que lá vem água...

 Homens e mulheres conheciam o alerta.

 Saltavam da cama, resignados, e se punham a postos para enfrentar a iminente inundação.

Móveis empilhados uns sobre os outros, as crianças em lugar seguro. Hora de ir pra rua.

Será que algum vizinho precisava de ajuda?

Depois, quando o dia clareasse, ainda insones, todos se ajudavam em mutirão.

Lavavam as casas, as calçadas...

E se preparavam do jeito que dava, para o dia de batente.

Numa das esquinas da rua, ficavam o barro e o entulho acumulados à espera que o poder público cumprisse o seu papel.

Era uma cena comum aos meses de janeiro e fevereiro ali, nos cafundós do bairro do Ipiranga. Naquele pedaço de chão que - até pelas constantes enchentes – ficou conhecido também como Ilha do Sapo, às margens nem tão plácidas do Riacho do Ipiranga e do Rio Tamanduateí.

 À época, São Paulo dava os primeiros passos no processo de industrialização.

As fábricas instalavam-se, então, ao longo da estrada de ferro ou nos arredores dos rios, onde, por força das circunstâncias, os terrenos eram mais em conta.

Em decorrência, as vilas operárias situavam-se nas áreas de várzea dos rios.

Inevitáveis, as inundações.

Bastava chover.

Ou nem isso...

Muitas vezes, sequer caía um pingo de água na região.

Se chovesse forte nas cidades do ABC, o volume das águas fazia estrago por onde passasse, leito afora do rio, e acabava por alagar toda aquela área.

Décadas e décadas depois, como repórter, estive a Ilha do Sapo para fazer matérias sobre enchentes que, desconfio, ainda persistem. Em meio às reclamações do momento, os moradores mais antigos sempre se lembravam das primeiras cheias.

Não se lamentavam.

Não se queixavam das perdas.

Enalteciam a amizade e o espírito de coletividade a se sobrepor aos sofrimentos e aos eventuais contratempos.

Nunca lhes perguntei. Mas, imagino hoje que soubessem que este denodo e esta atitude solidária foram fundamentais para a construção da pujante metrópole que hoje completa 458 anos.

Parabéns, gente paulistana!



Escrito por Rodolfo C. Martino às 09h42
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Recomeçar

Onda su onda.

Il mare me ha portato qui...

                          (Genova, janeiro 2012)

 

Agradeço ao poeta anônimo a deixa para tocar o post de abertura da sétima temporada deste modesto blog (desde 2008 também no Uol).

Leio a frase estampada na parede do hotel, onde me abrigo por uns dias, alguns metros do monumento a Cristóvão Colombo, o navegador.

Resolvo entendê-la como uma saudação de boas vindas a este viajante parvo que, um tanto à deriva, vai dar com seus costados na belíssima cidade italiana.

Por alguns dias, ali será o almejado tal porto seguro, onde pode atracar os sonhos e a esperança dos que ainda ousam acreditar.

(Não me perguntem em quê...)

Chegar e partir, ensina a canção, são dois lados da mesma viagem.

Sugerem o eterno recomeço.

Cá para nós, recomeçar também é uma arte. Mesmo que seja o humilde – mas, honroso – oficio de, diariamente, lhes escrever...

Bom ano a todos!



Escrito por Rodolfo C. Martino às 20h12
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Tio Neno e o presépio

Uma de minhas mais antigas – e doces - lembranças é o presépio que o meu Tio Neno armava na casa de meus avós maternos.

O lago era um ajuntamento de pequenos espelhos desses que as senhoras da época carregavam na bolsa para acertar a maquiagem. O chão de terra do caminho sinuoso, que se perdia na cordilheira, era feito de serragem que ele recolhia da marcenaria que existia nos arredores da rua Lavapés. As montanhas, que definiam a linha do horizonte, tinham suas entranhas forradas de bolotas de jornais velhos.

Folhas de papel de seda verde escuro forravam todo o tampo do sisudo móvel da sala. Davam a impressão de um amplo gramado por onde se espalhavam pequenas estátuas de magos, pastores e animais diversos – camelos, ovelhas, o burrico, a vaca, patos e galinhas.

Havia até um sapo que, embevecido, olhava o pescador a alçar um peixe.

Toda essa turma - a exceção do batráquio, creio - se dirigia à pequena estrebaria, de gravetos e palha, encimada por uma estrela brilhante (a custo de cola e muita purpurina prateada).

Ali, era o lugar santificado em que, pouco depois da meia-noite do dia 25 de dezembro, logo após voltar da Missa do Galo, o Tio Neno colocava a imagem do Menino Deus na manjedoura, ladeada por José e Maria.

Era este o ritual na casa da vó Ignes e do vô Carlito, com toda cerimônia e silenciosas orações.

II.

O Natal era assim, antes de tudo uma festa religiosa.

Havia, sim, os presentes, a comilança e, lá pelas tantas, a cantoria generalizada de canções napolitanas, embalada pelas taças de vinho tinto - afinal, eram todos oriundis.

Mas, repito e insisto, o Natal era antes de tudo uma festa religiosa. De congraçamento. Quando amigos e parentes esqueciam as rugas para unirem as vozes e os sentidos numa reverência ao Menino Deus que acabara de nascer.

Era um momento único, raro. De magia e encantamento.

Um momento pleno. De paz e de fé.

III.

Meus olhos de menino sonhador estalavam de admiração.

Eu achava o Tio Neno um artista, desses que saíam na capa da Revista do Rádio. Ficava feliz quando ele vinha me buscar em casa para vê-lo montar o presépio.

Isso acontecia em meados de novembro.

Eu ficava fascinado ao vê-lo tirando uma a uma, peça por peça, de uma enorme caixa para dar vida e mistério àquele canto de uma sala de estar comum, de móveis sóbrios e escuros.

IV.

Quando garoto até que tentei ter o meu próprio presépio.

Nunca ficou lá essas coisas. Não tenho o talento do meu saudoso tio para recriar, com pompas e circunstâncias, o cenário em que Jesus nasceu.

Com o tempo e outras tantas e inúteis demandas, perdi o jeito (que nunca tive) e o gosto.

Imaginei-me, tolamente, um homem sério, com agenda cheia e compromissos importantes.

V.

Ledo e ivo engano.

Só deixei escapar o menino sonhador para me aprumar no homem cético que – com a idade e os cabelos brancos – entendeu: precisa reaprender a admirar-se com o que está por vir.

Tenha forma e o rosto que tiver.

Porque a vida é mesmo um rosário de breves esperanças.

Que o Menino Deus, renascido, nos ensine a desfia-lo no ano que se aproxima.

Feliz Natal a todos e todas.

 

* EM TEMPO:

O blogueiro sai de férias. Volta dia desses, em janeiro..



Escrito por Rodolfo C. Martino às 12h00
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Cronistas e poetas

Desconfio que sou um dos raros ‘dinos’ do mundo que tem por hábito recortar e guardar crônicas que são publicadas em jornais e que, de um jeito ou de outro, me encantam e fazem a minha cabeça.

 

Do Carlos Heitor Cony, guardo todas. Acumulam-se em pastas e caixas ao lado dos livros de Rubem Braga. São os meus preferidos, juntos ao poeta gaúcho Mário Quintana.

 

Mas, há de outros autores, digamos, contemporâneos: Ruy Castro, Ignácio Loyola Brandão, Veríssimo, por aí vai...

 

Meu filho já me alertou o quanto há de ultrapassado nessa rotina.

 

-- Tem tudo online, pai.

 

Dá uma trabalheira danada, confesso.

 

Quase sempre deixo acumular semanas sem recortá-las.

 

Daí, só com denodo, coragem e muita – mas, muita – paciência enfrento a dura jornada.

 

Já pensei em desistir várias vezes.

 

Na hora H simplesmente não consigo.

 

Sou mesmo um cara do século passado, disse isso dia desses e hoje repito.

 

Nessa altura do campeonato, há poucas coisas na vida que me são mais prazerosas que ler e reler um velho e bom texto, leve e breve, capaz de me emocionar e, de alguma forma, me transformar a ponto de ainda enxergar o mundo com olhos de poeta.

 

Sim, porque os cronistas são assim. Poetas que se disfarçam e escrevem de um jeito escorrido, bom de se ler em se maravilhar.

 

Querem um exemplo?

 

Vejam o que Cony escreveu recentemente sobre o presidente Lula:

 

“Pois a cara de Lula é a maior prova de que ele vai tirar de letra o seu problema atual. Nos tempos da barba, ele parecia cansado, esbaforido, chegava às vezes a parecer sinistro. Agora não. É um rosto de quase adolescente, doce, uma garantia de que apesar de tudo, está de bem com a vida. Que continue assim. Quando as barbas voltarem, voltarei a falar mal dele.”



Escrito por Rodolfo C. Martino às 11h29
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Um amigo é para o outro

Um amigo, o Santista, resolveu pedir um help a este inofensivo escriba.

 

“Ao menos você, em seu blog, mude de assunto, pelo amor de Deus. Fale de outra coisa que não seja o chocolate que o meu Santos, de tantas glórias e tradições, tomou no domingo passado. Não aguento mais ouvir essa lengalenga”.

 

Como se dizia naquele velho botequim da rua Bom Pastor, esquina com a Greenfeld, ondo o Sacomã torcia o rabo e o Fábrica-Pinheiros bufafa e rangia na curva, “um amigo é para o outro”. Então, tá. Resolvido. Não se fala mais nisso...

 

Até porque nosso ponto de encontro não existe mais. Virou Estação Sacomã do Metrô e, quando nos encontramos, é sempre num bar alheio, com garçons desconhecidos e neutros quem sequer sabem das nossas aventuras em tempos idos e havidos, quando nos imaginávamos os tais e o Brasil ainda tinha o melhor futebol do mundo.

 

Ops, quase volto ao assunto.

 

Melhor me policiar – até porque o Santista é um dos meus fiéis cinco ou seis leitores.

 

E aqui, como na padoca da Bom Pastor com a Dom Lucas Obis, outro ponto de encontro da rapaziada que também desapareceu no fervilhar de prédios no Ipirangão velho- de-guerra, o freguês sempre tem razão.

 

Mais do que razão, o Santista é mesmo um sentimental.

 

Ele está morando em Belo Horizonte de uns tempos para cá. Casou, de novo – e longe das nossas más companhias, a coisa tende a dar certo. Disse estar bem, mas sempre lembra dos amigos Nasci, Escova, Made, Cebola e este trapalhão que vos escreve diariamente. É bem verdade que a fauna era maior e bem diversificada, dependendo da hora e do dia.

 

-- O bom de morar em BH é que pude ver o novo show do Chico Buarque que só vai chegar em São Paulo em março/abril do ano que vem – contou-me todo prosa ao telefone.

 

Me desfiz em perguntas sobre o espetáculo e lamentei que por aqui – dizem – os ingressos já estão esgotados. Santista foi generoso nos detalhes. Destacou que um dos melhores momentos do show é quandoo carioca Chico homenageia o rapper paulista Criolo que deu uma nova roupagem para a emblemática “Cálice” (parceria Chico/Gilberto Gil).

 

-- Ele até improvisou um rap, acredita?

 

Claro que acreditei.

 

Com o perdão pela comparação, mas Chico é o Messi da nossa música popular. Sua obra - um verdadeiro Barcelona, de tão envolvente - deveria ser matéria obrigatória para estudo e conhecimento das novas gerações de boleiros; digo, de brasilerios. Basta uma audição do recente CD, Chico, para se ter a exata dimensão do que estou a lhe dizer.

 

Só não acreditei quando, horas depois, via torpedo, recebo o que imagino ser a letra (ou parte dela) do rap buarquiano:

 

“Era como ser o camarada dissesse:

Bem-vindo ao clube, Chicão

Bem-vindo ao clube.”

 

“Valeu, Criolo Doido

Evoé, jovem artista

Palmas para o refrão

Do rapper paulista.”

 

É Santista, a gente sempre se surpreende com um gesto de carinho - e o fino toque de bola do Xavi e do Iniesta

 

Vale o lema: um amigo é para o outro – o Nasci costumava juntar as letras só para zoar com a gente: “um amigo é potro”, lembra?

 

Valeu – e, neste espaço, ao menos neste ano, não se fala mais naquele time catalão.

 

Abraço.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 11h09
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Consciência histórica

Vivemos um momento raro no âmbito do esporte, mais precisamente do futebol.

 

Podemos acompanhar a arte e ofício dos boleiros do Barcelona joguem onde jogar – a TV nos permite o privilégio – com a consciência de que se trata de uma troupe de artistas que está fazendo escola.

 

Não é uma praxe, repito.

 

Não dá para copiar o estilo, a mecânica de jogo.

 

Insisto no que ontem escrevi: o Barça é caso único – e para sempre.

 

Não lembro de outro instante em que tivéssemos – nós, torcedores – consciência explícita de que se escrevia a história do Planeta Bola.

 

Meu velho e querido pai, por exemplo, me contava, com olhos marejados, que o grande time que viu jogar foi o italiano Torino. O Aldão viu duas ou três partidas dos ragazzos que excursionaram pelo Brasil e América do Sul. Uma tragédia aérea pôs fim a vitoriosa trajetória da equipe em 1949. O avião em que a equipe viajava de volta à Itália, após enfrentar o Benfica em Lisboa, chocou-se contra a Basílica de Superga.

 

Meu time Ferdinando queria me ver tricolor. E não poupava elogios ao São Paulo, da linha média formada por Rui, Bauer e Noronha.

 

-- Esse time era imbatível, dizia quase uma década depois.

 

Eu mesmo, ainda garoto e adolescente, acompanhava o alucinante Santos de Pelé, Coutinho & belíssima Cia. A meninada tinha entrada grátis no Pacaembu, desde que acompanhada por um adulto. Então, ficávamos – minha turma e eu – em frente aos portões do estádio, pedindo que algum senhor nos acompanhasse e, lá dentro, nos encontrávamos na antiga Concha Acústica para a festa que era ver o Santos jogar.

 

A barra só pesava mesmo quando o Peixe pegava o Palmeiras.

 

O coração quase saltava pela boca.

 

Pelé e Coutinho eram indomáveis – nos dribles, nas tabelas, no toque final para a rede.

 

Para piorar, ainda havia o canhão da Vila, Pepe, e a rapidez de Durval a se livrar dos carrinhos de Geraldo Scotto – um dos raros laterais que conseguiam lhe marcar.

 

Um sufoco.

 

Um sofrimento.

 

Não tinha noção que estava vendo a melhor equipe de todos os tempos.

 

Só queria que a partida terminasse o mais rápido possível.

 

Desconfio que os santistas viveram essa mesma sensação no domingo.

 

Se lhes servem de consolo, caros amigos, fãs do Peixe, torcer contra aquele time do Santos era bem mais terrível.

E goleador implacável.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 10h11
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O Barça de hoje é para sempre

Rola bola, rola bola
Quem rola bola não fica à toa
Quanto mais a bola rola, ai, ai...
Mais a vida fica boa

Gente, foi só um jogo de futebol.

Ta certo, sei. Valia pelo Mundial de Clubes.

Mas, vamos lá rapaziada, pense bem, avalie. Nós aqui, dos trópicos e dos tropeços (como o de ontem), enchemos de fama esse torneio que, a bem da verdade, é pouco mais que uma festinha de congraçamento dos orientais, patrocinado por aquela marca de carro que eu nunca vou conseguir ter.

Ou o tal do Al-Sadd é mesmo o terceiro melhor time do mundo?

Não discuto a supremacia do Barcelona.

Que não é de hoje – e, a bem da verdade, não surpreendeu a ninguém que acompanha as coisas do Planeta Bola com olhos de ver.

Não chore em vão, amigo santista.

O placar de 4 a 0 foi pouco diante dos galegos.

Temi o pior.

Felizmente, os magos tiraram o pé – e o travessão e o bom goleiro Rafael acomodaram o resultado.

Aos coleguinhas da crônica esportiva, em geral, segurem a onda, manos veios e novos.

Antes do prélio, iludiram a rapaziada com comparações incomparáveis (por exemplo, quem é melhor: Messi ou Neymar?), falsas esperanças e o escambau.

Depois do vareio e da sacolada, desancaram em soluções que sabemos bem estão longe de explicar os desígnios dos deuses da bola.

Falam em conceito disto, em filosofia daquilo. Culparam os técnicos nativos – todos retranqueiros e subservientes aos botinudos. Clamaram por reformas estruturais. Choraram de saudades de tempos idos quando o Brasil jogava assim...

Balela, meus caros e fiéis cinco ou seis leitores.

O Barça de hoje é para sempre. Desses fenômenos raros – e únicos. Como foi, à sua maneira, o Santos de Pelé, Coutinho & Cia. Como foi a seleção de 70. A Holanda, de 74...

(Dos times que vi jogar, eu paro por aqui. Os demais ficam bem abaixo.)

Temos mais é que agradecer aos Céus a graça de vê-lo em campo.

E aguardar o próximo espetáculo, o próximo baile...

* Ah! se me permitem farei um reparo aos magos da bola do Barça. Vão bater mal escanteio assim nos confins da Catalunha. Se esse time tivesse um Marcos Assunção seria perfeito...

* Improvisei os versos que encimam o post de uma antiga canção de Benjor.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 09h47
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Poética

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem-comportado

Do lirismo funcionário público

com livro de ponto expediente

[protocolo e manifestações

de apreço ao sr. Diretor

 

(...)

 

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbados

O lirismo dos clowns de Shakespeare

 

-- Não quero mais saber do lirismo

                        que não é libertação.

 

* Este modesto blog pede licença

e pede passagem para reverenciar,

com os versos de Manuel Bandeira,

a memória de três expoentes

da cultura universal

que ontem partiram:

 

Joãosinho Trinta

Sérgio Britto

Cesária Évora

 

Pelos sonhos que despertaram...

Pelo legado de arte que deixaram...

Pelo tanto que nos encantaram,

louvados sejam na Terra e no Céu.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 00h15
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Te vejo no Face...

Sou um cara do século passado.

 

É o que sempre digo aos meus interlocutores mais jovens – e mesmo a alguns contemporâneos quem se imaginam garotões de tudo.

 

Um deles, o Cebola, chegou a tatuar um tribal no dorso do braço.

 

Como não o via há tempos, ao reencontrá-lo dia desses, segurei o espanto. Mas, confesso, fiquei curioso para saber o motivo de tal façanha.

 

Outro amigo, o Escova, dias depois pôs fim ao mistério, da maneira mais óbvia possível.

 

-- Mulher nova, meu caro.

 

E arrematou à la Nélson Motta, em versos que a voz de Marisa Monte consagrou:

 

-- O que é que a gente não faz por amor?

 

Escova, como os meus caros cinco ou seis fiéis leitores bem sabem, é o nosso Dom Juan das quebradas do Sacomã. Seu cabelo acaju é prova inconteste de que conhece os mil e um expedientes na arte da conquista.

 

-- Estou na minha sétima geração de mulheres, me confidenciou o malandro, enigmático e satisfeito consigo mesmo.

 

-- Como assim, perguntei. Sou meio tapado, demoro entender (in)certas situações.

 

Escova riu da minha ignorância. Não entrou em detalhes, mas fez um apanhado geral do que quis dizer.

 

-- Como fui um garoto precoce, sempre me enroscava com mulheres mais velhas que eu. Hoje essas senhoras devem estar pela casa dos sessenta e tantos. Com o passar dos anos – e põe passar dos anos nisso – fui mantendo meus romances com garotas na faixa dos 20 anos, pouco mais, pouco menos. Como profundo conhecedor do assunto, posso dizer que as mulheres são “geracionalmente” diferentes a cada cinco anos. Daí, é só fazer a conta...

 

Não me dei ao trabalho de calcular – e peço ao caríssimo leitor que também não o faça, pois, segundos depois, tive a prova inconteste de que Escova não mentia, nem exagerava.

 

Eis que surge uma garota de seus 19, 20 anos à nossa frente à procura de quem, de quem? Óbvio, que era do Escova, o Dom Juan das quebradas do Sacomã. Ágil, levou a moça para um canto, conversou baixinho o que tinha que conversar e se despediu na maior intimidade:

 

-- Então, ta... Te vejo no Face...

 

Nós, os veteranos da turma da velha redação de piso assoalhado da rua Bom Pastor, quase aplaudimos de pé o amigo tão por dentro deste admirável mundo novo.

 

Modesto como de costume, Escova preferiu confessar a verdade, nada além da verdade:

 

-- Calma pessoal, que essa é minha sobrinha neta, que veio me convidar para uma baladinha. O filho dela vai ser batizado, sabe como é, né? O tiozão aqui não pode faltar.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 10h56
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Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Homem

Rodolfo Carlos Martino é mestre em Comunicação Social. Leciona na Universidade Metodista, onde responde pela coordenação do curso de jornalismo, desde 2005. Foi diretor de Redação de Gazeta do Ipiranga por 28 anos. Autor do livro "Às Margens Plácidas do Ipiranga".

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