Escova, o ativista

Escova se beslicou para ter certeza que não estava sonhando.

Melhor seria dizer, se não estava tendo um pesadelo.

E dos brabos, sô!

II.

Já se enroscara em cada uma por causa de mulher... Mas, chegar ao ridículo daquela situação era demais.

Estava seminu, só de cuecas, pedalando a bicicleta (que pegou emprestada do porteiro do prédio mais próximo) em plena Avenida Paulista.

III.

Tudo tem limite.

Mas, desta vez, ele esgotara toda a cota de loucura por causa de mulher.

Estava ali, em plena manifestação dos peladões e das peladonas, pelos direitos dos ciclistas e das bicicletas.

IV.

“Queremos ciclovias.”

“Queremos ciclovias.”

Era uma “calça” justa, como dizia o amigo, o libanês Chalita, dono de uma loja de armarinho.

Decididamente, porém, Escova não tinha nada a ver com aquilo.

V.

Pior.

A ‘bandidinha’ que o levara a tamanho absurdo sumira no meio da barulhenta turma.

Procura que te procura, e nem sinal dela.

Era tão ágil no pedal quanto na arte do convencimento.

Ele não resistiu quando ela lhe sorriu, tirou o top e o shortinho que vestia e, só de calcinha, fez o convite:

-- Arranje uma bicicleta, e vem.

VI.

Escova, o Dom Juan das Quebradas do Mundaréu, não pensou duas vezes.

Disse para Toinho, o porteiro, que estava ‘desapropriando’ temporariamente sua bicicleta por questões de segurança nacional.

E lá foi ele todo pampeiro, deixando parte das roupas por onde passava.

VII.

Agora, estava ali, na maior paura, sem lenço e sem documento.

Na pior das solidões.

Na ala dos ciclistas barbados tão pelados quanto ele.

VIII.

Cadê a ‘bandidinha’?, perguntava-se em vão.

E os policiais militares que acompanhavam o protesto, com os cassetetes nas mãos, a olhar para a turba cheio das más intenções.

Escova parecia ler o pensamento dos caras.

Ah! Se arrependimento matasse...

Afinal, ele tinha um nome a zelar.

IX.

De repente, não mais que de repente, em meio à confusão de aros, pernas e outras tantas partes, surge a repórter de TV (vestida da cabeça aos pés, registre-se), de microfone em punho, caminhando decidida em sua direção...

X.

Escova parou de se lamentar no mesmo instante.

Fez pose de ativista.

Bradou duas ou três palavras de ordem.

E murmurou para si próprio:

-- Nem tudo está perdido...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 15h00
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Nataly e o Brasil

Logo mais, aí por volta das cinco e meia da tarde, Nataly vai cortar as ruas do bairro de Pocitos (Montevidéu), com passos apressados até chegar ao restaurante onde trabalha na esquina das ruas 21 de setembro com Juan Benito Blanco.

Ela vai retomar a lida de atender às mesas com bloquinho na mão e um sorriso no rosto, além da natural presteza que cativa à clientela.

Essa é sua rotina de quarta a domingo. “Divertida, pero algo cansativa”, diz ela.

Tem folga na segunda e na terça, quando diminui sensivelmente o movimento de turistas na capital uruguaia.

“Somos uma casa de carnes típica. Trabalhamos com esse público, basicamente”, acrescenta ciosa do que diz e faz.

Por falar em fazer, ela aproveita esses dias para por em ordem os afazeres escolares e domésticos.

Nataly é colombiana. Aparenta andar aí pelos vinte e pouquíssimos anos. (Homens da minha geração, nem sob tortura, perguntam a idade a uma mulher) É simpática, e linda (Aqui a ordem dos fatores não altera o harmônico resultado final). E estuda Negócios Internacionais na Universidade de Montevidéu.

Bendito intercâmbio!

Agora, o melhor da festa para a rapaziada brazuca...

Sabem qual o sonho de Nataly?

Falar português com fluência e, creiam, morar no Brasil.

Preferencialmente em São Paulo.

-- Minha professora de português nasceu no Rio de Janeiro, é,como se diz...

-- Carioca.

-- Isso. Mas, eu disse a ela que São Paulo é ‘mais grande’, mais importante para quem quer seguir a carreira que escolhi.

A conversa com a bela Nataly foi uma das tantas, com o mesmo teor, que tive com diversos estudantes de toda a América Latina, recentemente em Montevidéu, durante o XI Congresso Latinoamericano de Investigadores de la Comunicación.

Dá orgulho ver a imagem de país forte e promissor que hoje o Brasil ostenta lá fora.

Os jovens querem vir para cá; estudar e/ou trabalhar. Preparar-se para a construção de um mundo melhor.

Somos a terra prometida, quem diria?

O tal do país do futuro que nos bate à porta.

Tudo bonito, mágico. Que nos custou – e custa – uma trajetória de sacrifícios.

Junto com o orgulho, caro, vem a consciência de que aumenta a nossa responsabilidade de continuarmos a trilhar o bom caminho.

E que há muito ainda para se fazer...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 15h30
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Tudo outra vez...

Amaram-se.

Tornaram-se a se amar depois, durante o banho que se prolongou doce e eternamente.

Ele fez menção de sair.

Ela preferiu ficar sob a intermitente ducha de água morna.

Com um beijo no rosto – inocente, mas significativo de tudo o que acabavam de viver – ele seguiu para o quarto ao lado.

“Te espero”, disse com sentido dúbio e convidativo.

Charmosa que só, demorou-se além do que pretendia na expectativa de que ele lhe procurasse.

Até que desistiu da espera – e resolveu ir ao encontro do amado.

Estranhou a toalha a cobrir parte do espelho.

O que ele estaria aprontando?

Sequer terminou o pensamento, num gesto solene, de quem descerra uma placa comemorativa, acabou com o mistério.

Ele deixara uma declaração impressa na superfície embaçada pelo vapor:

“Você é tudo o que eu sempre quis para sempre. Te amo.”

Sorriu encantada.

Ajeitou os cabelos molhados – e foi ao encontro do aprendiz de poeta, cantarolando:

 

"Delícia. Delícia.

Assim você me mata."

 

Começariam tudo outra vez.

Não há nada mais bonito do que um tenro sonho de amor que se faz real. E pleno.

Que seja vida e mistério enquanto assim for...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 14h42
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Bom conselho

A vida

 

Mas se a vida é tão curta como dizes

por que é que estas me lendo agora?

 

 

* Aproveitem o bom conselho do poeta Mário Quintana – e divirtam-se.

  

O blogueiro fará a sua parte.

 

Sai para um breve descanso...

 

Volto em breve.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 01h23
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Boas novas para os cultores da MPB...

Boas novas para os cultores da MPB.

O cantor/compositor Mílton Nascimento está na estrada com novo show.

Para reverenciar datas que lhe são caras – 50 anos de carreira, 70 anos de vida e 35 do lançamento de “Travessia” – o Bituca convocou o parceiro Lô Borges para uma série de oito apresentações.

Estreia em Belo Horizonte (dia 27), passa pro Brasília (18/6), São Paulo (4/8), Porto Alegre (18/8), Salvador (1º/9), Três Pontas (9/9) e termina no Rio em 6 de outubro, mês em que Mílton vira setentão.

Estão nos planos de Mílton refazer o clássico espetáculo “Clube da Esquina” em futura temporada.

II.

Já está nas boas lojas do ramo o cd “Reza”, com a indefectível marca de Rita Lee.

São 14 canções inéditas, no inconfundível – e delicioso – estilo que consagrou Rita e o marido Roberto Carvalho entre os grandes nomes da MPB.

A faixa-título é parte da trilha da novela “Avenida Brasil”.

E mostra o quanto a dupla continua afiada, e atual.

III.

Até 20 de maio, continua em São Paulo a mostra Viva Elis [no Centro Cultural, rua Vergueiro 1000].

Vale a pena reviver quem foi – e continua sendo – nossa melhor cantora.

O painel é amplo. Tem entrevistas, fotografias, réplicas de roupas que usou em seus espetáculos, cenas de shows e reproduções de reportagens.

Imperdível.

IV.

Zeca Baleiro está com novo disco na praça.

Chama-se “O Disco do Ano” – e comprova a fina estirpe deste cantor/compositor cearense.

São doze novas canções, que viajam, com leveza, entre o tradicional e o contemporâneo.

V.

Para quem não assistiu vale a lembrança.

O documentário “Raul – O Início, o Fim e o Meio”, de Walter Carvalho, continua em cartaz nos cinemas da cidade.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 12h08
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Escova e Alicinha (final)

Alicinha agora brigava em duas frentes:

1 – conter os libidinosos avanços de Escova e...

2 – segurar o choro de arrependimento.

Que esparrela!

Escova se achando.

O arrependimento.

E a criança que, livre do cadeirão se pôs a correr entre as mesas do restaurante, a comemorar a  súbita liberdade em sonoro idioma próprio.

-- Dedéééééé. Dedéééééé...

Escova percebeu que algo acontecia. Mas, não intuiu o tamanho da encrenca.

Os músculos de Alicinha se enrijeceram. Perdera a fome, e a coragem.

E a menina – tão parecida com a sua Mirna – a lhe cobrar uma atitude:

-- Dedéééééé. Dedéééééé...

-- Dedéééééé. Dedéééééé...

-- Dedéééééé. Dedéééééé...

As pessoas às mesas riam da farra da garota.

Os pais continuavam a lida de derrubar a taça de sorvete, indiferentes às peripécias da pimpolha.

Escova, de repente, silenciara. Pressentira que a bola não estava mais com ele.

Só Alicinha entendia o drama que estava vivendo.

Um drama que não resistiria a mais um segundo sequer.

Entre um e outro “dedéééééé, dedéééééé” tomou coragem e disse o que tinha de dizer:

-- Desculpe, Escova, mas o licor fica para a próxima [se houver próxima, pensou.]

Estou morrendo de saudades da minha filha.

Levantou-se, e foi embora.

Acenou para a garotinha:

-- Tchau – e obrigado pela dica.

Como resposta, obteve um sonoro...

-- Dedéééééé. Dedéééééé...

Desconsolado, não coube alternativa ao nosso herói, se não aquela de sempre: entornar o que restou da garrafa de vinho, pagar a conta e afogar o vazio que lhe ia à alma no boteco de sempre. Com os amigos de sempre. Que ouviam solidários as lamúrias de sempre [ainda que debochadamente entendiam a sua dor]. Além do que, sempre havia uma alma generosa para lhe pagar a saideira.

Só não se conformou com o cartaz afixado na parede do boteco, sabe-se lá porque razão. Anunciava o novo filme de Johnny Deep – Diário De Um Jornalista Bêbado.

-- Quem é esse cara?, perguntou com voz pastosa.

-- Essa é a minha história, indignou-se antes de debruçar-se sobre o tampo da mesa e apagar num sono pesado e sem quaisquer sonhos.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 10h47
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Escova e Alicinha (IV)

À essa altura do campeonato, o velho Escova já dava como favas contadas o inevitável abate.

Questão de minutos; meia-hora, se tanto.

Logo estariam dividindo o licor e o edredon no flat ali ao lado.

Por tudo o que já vivera na área da trampolinagem, o nosso Dom Juan estava até um bocadinho surpreso.

Fora mais fácil do que imaginara...

Pois é, meus caros, como dizem pela aí, quem vê cara etc etc etc.

Alicinha, digamos, começava a recuperar a noção das coisas e de onde estava.

Sorria mesmo assim para as bobagens melosas que Escova dizia.

Precisava ganhar tempo para escapar da armadilha que se enredara – e da qual se arrependera e queria ver-se livre o mais rápido possível.

-- Como vim parar aqui, perguntava-se sem pretensão de responder, só de escapar.

Estava nesse lusco-fusco, sem ação alguma, sem solução aparente, quando ouviu um choro de criança.

Um buábuábuá mais do que conhecido.

De imediato, se lembrou da filha querida.

Será que...

Não.

Não era tão trágico assim.

 A menina devia estar em casa com a babá – e talvez se desse conta da ausência da mãe. Mas, não tinha certeza.

Atrás da mesa dele, um jovem casal relutava em soltar a criança, presa ao cadeirão. E cansada de estar ali, degustando pãezinhos, batatinhas e afins, enquanto os pais caíam de boca em soberba sobremesa de sorvete.

-- Não pode. Não pode, dizia mãe à criança. – Você resfria fácil, fácil.

Mas, essa constatação não tranqüilizou Alicinha.

Que agora se achava a mãe mais desnaturada do mundo.

Onde já se viu? Trocar a carinha angelical de Mirna (a filha, de ano e tanto) por esse estropício? Onde estava com a cabeça...

 

** Continua amanhã...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 16h09
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Escova e Alicinha (III)

Diz a canção:

“A gente nunca sabe bem o que é que quer uma mulher”.

Há homens tolos que ainda duvidam da correção dos versos de Caetano Veloso em “Pecado Original”.

As mulheres, no entanto...

Bem, as mulheres, minimamente normais, têm plena convicção de que, em determinados momentos, não sabem o que fazem, o porquê fazem e quais as conseqüências do que fazem.

Aliás, este é o grande barato de ser mulher.

Na manhã do dito-cujo encontro com Escova, ela acordou assim.

Despediu-se do marido no café da manhã com um sorriso, um longo beijo e a certeza de que aquela ‘brincadeira’ de almoço já havia ido longe demais.

Inventaria uma desculpa – e não iria.

Minutos depois, ao deixar a filha com a tia da vã que a levaria para a escola, deixou recomendações claras para trazê-la no horário e certificar-se se a babá a levaria para dentro. Estava “entupida” de trabalho – e talvez não viesse para casa antes do anoitecer.

Estranhou a mentira que acabara de inventar, mas aplaudiu, interiormente, a naturalidade com que ‘fechou’ o assunto.

No trabalho, por mais de uma vez, surpreendeu-se conferindo o visor do celular para saber se havia alguma mensagem.

Do Escova, claro.

Nesse joguinho de vou-não-vou, sequer notou a manhã passar.

Quando deu por si, já estava dividindo uma mesa de canto no restaurante, com aquele pilantra que mal conhecia, mas bem sabia das suas intenções.

O lugar era sem charme. Seguro, no entanto.

Por certo não haveria nenhum conhecido de ambos nas redondezas.

Incrível reconhecer. Sentia-se segura, levemente inconsequente, e com a convicção de que tudo não passaria de almoço, sem maiores consequências.

-- Um dedinho mais de vinho, por favor. Mas só um pouquinho.

Nunca saberemos se foi o tal “dedinho de vinho” ou outro fator qualquer. O fato é que Alicinha foi gostando do jogo jogado. Quanto mais Escova, o predador, aproximava sua cadeira da dela e esticava o braço para roçar seu ombro como se fosse íntimo, mais a moça ia perdendo a noção do perigo.

Tanto que resolveu atiçar os humores e desejos do velho Dom Juan das Quebradas dos mundaréus.

Sutil como um elefante em uma loja de louça, ela provocou:

-- Pensei que fossemos a um lugar mais tranquilo, um cantinho onde pudéssemos ficar mais à vontade.

Queria vê-lo sem jeito.

Escova era experiente no assunto:

-- Por isso, não. A duas quadras daqui existe um flat ótimo. Deixei para tomarmos lá o licor. Eu nunca deixou de satisfazer as vontades de uma mulher, ainda mais linda como você...

Ele continuou o xaveco. Ela nada mais escutava, envolta na aflição de embarcara numa canoa furada, e lhe pareceu ali – não tinha volta.

E agora?

Olha o tamanho da enrascada que entrara...

** Continua amanhã...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 22h31
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Escova e Alicinha (II)

A moça relutou na primeira investida.

Vacilou na segunda.

-- Adoro conversar com você, mas não sei se seria de bom tom.

E se entregou na terceira.

-- Está bem. Dia desses a gente se encontra...

-- Amanhã, a gente almoça juntos, ok? Sei onde você trabalha.

Uma das características do predador Escova era exatamente essa: armar-se de todas as informações possíveis e imagináveis sobre a caça. Para não ter erro na hora do bote.

De posse da ficha de Alicinha, Escova sabia exatamente como era a rotina da moça. Esposa fiel, mãe dedicada e executiva de algum sucesso na área dos cosméticos. Tinha hábitos rotineiros. Marcava todas as reuniões para a parte da manhã, almoçava por volta do meio-dia em um restaurante ali pertinho, corria para casa, olhava a criança por volta das 16 horas estava de novo na empresa de onde saía impreterivelmente às 19 horas. Chegava às 19h30 em casa em tempo de preparar o jantar, receber o marido e curtir o resto da noite em família.

Escova juntou o lé com o cré – e apostou no horário do almoço e pós almoço. Experiente no assunto, fez os cálculos.

Qualquer desculpa, por mais esfarrapada que fosse, convenceria a empregada que não poderia voltar para casa naquele horário – e assim, um pelo outro, ambos teriam em torno de quatro horas para serem felizes.

Alicinha riu da investida do gabiru.

Já havia intuído que estava sendo cantada – e descaradamente. Mas, topou o jogo jogado. Até porque faz bem para o ego de qualquer mulher.

Nunca imaginou que as coisas passariam desses limites.

Mas, agora estava diante de um impasse.

Lembrou os tempos idos, de solteira, quando arrebentava os corações masculinos com essas brincadeiras de quero-não-quero.

-- O quanto me diverti com aqueles panacas?

Um a mais, um a menos, não vai mudar nada.

Escova era um cara mais vivido.

Fazia o estilo do romântico à moda antiga.

Um tanto cafa, outro tanto safo.

Seria divertido dar um vaivém nele também...

Nem percebeu.

Fez carinha da santinha do pau oco e, entre tímida e sedutora, disse:

-- Eu topo!

** Amanhã continua...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 06h19
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Escova e Alicinha

Reprodução

 

Escova anda desconfiado desde que viu o cartaz anunciando o novo filme de Johnny Deep – Diário de um jornalista bêbado.

-- É comigo isso?

Não assisti ao filme, mas fui logo tranqüilizando o amigo.

-- Nada a ver, Escova. Isso é coisa de gringo.

Mesmo assim, Escova não se satisfez.

-- Sei não, disse. – Todo mundo conta as pingas que eu bebo. Ninguém quer saber dos tombos que levo.

Achei aquela fala enigmática. E o amigo um tanto triste.

-- O que aconteceu, cara?  Algum problema?

-- Todos.

“Todos” os problemas de Escova, para quem o conhece bem, se resumem a apenas um: mulher.

Desencanei.

Mas, segundos depois, a curiosidade falou mais alto.

-- Qual a boa? Conta aí?

-- A boa é a Alicinha, disse o amigo.

-- A Alicinha!!!

Fiz uma expressão de espanto mesmo sem saber quem era a moça.

Sei, pela vivência nos bares e botecos da vida, que o nosso Dom Juan das Quebradas do Sacomã não resistiria a deixa e me contaria o que estava acontecendo.

Dito e feito.

-- Pois é. Levei meses cantando a jovem senhora. Investi olhares, bom dia e boa tarde cheios de intenções, conversas meigas... Quase virei corintiano o dia que a vi com aquela camisa grená que tem a estampa de São Jorge... Tudo para chegar aos finalmentes e...

Cabe aqui um oportuno esclarecimento ao distinto leitor.

Alicinha era uma jovem senhora que morava no mesmo prédio que Escova. Casada e mãe de uma pimpolha de dois anos, pouco mais, pouco menos. A bem da verdade, o amigo nem se ligava na moça até que veio a fase pós gravidez. Ela tomou formas mais fartas, mais apetitosas aos olhares do velho lobo das redações.

Escova me garantiu que as mechas aloiradas no cabelo e certa bandidagem no olhar foram quesitos suficientes para que os sinos da conquista repicassem naquele fim de tarde que ambos tomaram o elevador; juntos só os dois.

A partir daí, foi incontrolável segurar os instintos ‘domjuanescos’ de Escova,

Ele desenvolveu toda uma estratégia para provocar encontros diários – e “involuntários” – no elevador, no estacionamento, na área de lazer, onde fosse possível. Sempre tinha uma palavra amiga, um comentário esperto sobre a vida, uma citação poética que decorava especialmente para tais ocasiões.

Até que, sem que se dessem conta, já estavam próximos.

Próximos o necessário para que Escova fizesse o inevitável convite...

 

** Amanhã continua...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 11h41
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40 luas...

Cena do filme Xingu

 

Não tenho lá grandes referências sobre nossos mais legítimos antepassados.

Sei o refrão da música do Benjor que a Baby Consuelo (atual Baby do Brasil) consagrou.

 “Todo dia, toda hora, era dia de índio”.

Pouco restou do que aprendi nos livros escolares, lá da escola fundamental, palavras como tacape, tucupi, tacacá, tapuia, tupi-guarani...

Tenho também algumas lembranças da trajetória dos irmãos Villa Boas. Acompanhei o noticiário dos jornais que o pai trazia para ler em casa, na hora do almoço.

[Prometo assim que puder assistir ao filme do diretor Cao Hamburguer.]

(...)

Mesmo com essa rala cultura sobre o tema, o blog tem a ‘caradura’ de referendar este 19 de abril, ainda que modestamente.

Farei a homenagem, reverenciando como os índios tratam o amor.

É curioso...

Para eles, tudo na via é cíclico.

O amor, por exemplo, dura exatamente 40 luas.
 
Explicando melhor.

São 40 luas cheias.
 
Ou seja, três anos um mês e onze dias.
 
O que vem depois, atribuem o conceito aos nativos, é hábito, respeito, convivência, amparados em outro tipo de sentimento.

(...)

Não sei lhe explicar o porquê deste período.

Não me perguntem como chegaram a esta conclusão.

Qual ampulheta ou engenhoca digital usaram para medir o princípio, o fim e o meio.

(...)
 
Alguém que entrevistei lá traz me disse isso.
 
Não fui me certificar da coisa.

Apenas comecei a reparar na vida - minha e de outras pessoas.

Vi algum sentido na reflexão.

E estou lhes passando de mão beijada.
  
Se quiserem acreditar, acreditem...

Mas, fiquem espertos.

(...)

Não temos controle sobre as coisas do coração.

Amar não significa necessariamente ser feliz.

Amar a pessoa errada (homem ou mulher) dói mais do que pisada de elefante.

Não foi nenhum índio que me ensinou isso.

Também não fui – e nem quero ser – pisoteado por um paquiderme.

Mas, há que se reconhecer, faz sentido...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 11h25
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Humor não é reportagem

     

        Foto: Lucas Lima

Deu na home do UOL:

 

JORNALISTAS

AMEAÇAM AGREDIR

REPÓRTER DO CQC

EM BRASÍLIA

 

·         http://mauriciostycer.blogosfera.uol.com.br/2012/04/17/jornalistas-ameacam-agredir-reporter-do-cqc-em-brasilia/

 

Permita-me recuperar o que este modesto blog escreveu em 2 de julho de 2009 por ocasião de u8ma tantas confusões que os humoristas arranjaram no Congresso nacional.

II.

“Jornalismo, meus caros, é um bem público.

Não se concebe “estar” jornalista – e, sim, “ser” jornalista – uma profissão de tempo integral.

Oportuno salientar que, no bojo dessa discussão [sobre a legitimidade do diploma de graduação em jornalismo], vem à baila outra polêmica: a ação do segurança do Senado contra o rapaz do CQC que tentava fazer algumas perguntas a José Sarney.

Houve agressão, não houve. É censura, não é...

Eis a notícia estampada em sites, portais e nos telejornais da Casa.

Leio aqui e ali a manchete:

“Repórter do CQC é agredido no Senado”.

Ocorre-me, então, um terceiro ponto de discussão.

Com todo respeito à rapaziada do programa da Band, não considero jornalismo o que é feito ali. Está mais para o humor do que para o esclarecimento e informação da opinião pública.

É induzir os leitores/internautas/espectadores ao erro chamá-los de repórteres.


Aliás, são constantes as reclamações dos jornalistas que precisam dividir espaços de coletivas com os rapazes. Muitas vezes, na ânsia de não perder a piada, eles atropelam os profissionais de imprensa. Em outras ocasiões, os entrevistados preferem responder ao CQC mesmo que sejam zoados – e assim escapar das verdadeiras questões.

Houve até uma nota, semanas atrás, no painel da Folha sobre a questão.

Enfim, é assunto que está em discussão:

CQC é jornalismo?”

III.

A questão vale para o CQC, para o Pânico e congêneres.

Eu assino que não.

E você?

Qual sua opinião?



Escrito por Rodolfo C. Martino às 14h30
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O sambista que era rei...

Eu começava minha modesta carreira, como repórter dos cadernos de artes e variedades.

Minha incumbência era escrever sobre música popular brasileira – o que me levava a entrevistar de cinco a seis cantores/compositores a cada semana.

Cobria shows e lançamentos de discos.

O salário não era lá aquelas coisas.

Mas, a gente se divertia legal.

Já resgatei algumas dessas entrevistas na seção “Leia Esta Canção”.

Tenho vontade de trazê-las todas ou, em especial, as mais relevantes para disponibilizá-las no site.

É um projeto sempre adiado, mas que ainda realizarei, prometo.

Todo esse blábláblá devo explicar se deve  ao cd recentemente lançado pela Som Livre, Sempre, do saudoso sambista Roberto Ribeiro (1940/1996).

Trata-se de uma coletânea, com os sucessos do grande intérprete.

“Todo Menino É Um Rei” é o carro-chefe.

Bateu uma saudade danada, meus caros. Por tudo e por nada.

Entrevistei Roberto Ribeiro algumas vezes em meados dos anos 70, quando sua produção era mais recorrente.

O Brasil vivia um momento de exceção.

Era um país triste.

A voz cristalina de Ribeiro dava dignidade e vida ao samba.

O grande intérprete teve um final trágico.

O diabetes, além de lhe debilitar a saúde, lhe trouxe complicações para tocar a vitoriosa carreira.

Perdera parte da visão.

Morreu atropelado numa quebrada do Rio de Janeiro.

Ainda hoje não é reverenciado como mereceria...



Escrito por Rodolfo C. Martino às 17h36
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"Eu não confio mais na gente"

Foto: Jô Rabelo

 

Nunca imaginou que, um dia, lhe diria o que acabara de dizer.

Curta, e objetiva na introdução [que, diga-se, não permitia dúvidas sobre o que viria depois]:

-- Eu não confio mais na gente!

Como todo homem que se julga vivido e cousa e lousa, ele fingiu não ouvir.

Tentou mudar de assunto.

-- Então, almoçamos? Escolhe o restaurante?

Ela o conhecia o suficiente para não cair naquela esparrela.

-- Eu não acredito mais na gente.

Repetiu em tom determinado, de quem havia pensado e repensado a situação.

Não lhe interessava o passado, nem o futuro. Queria dar um fim àquele amor acabado, esgarçado por promessas e desilusões. Não poderia precisar quando tomou consciência do que estava ocorrendo. Mas, era fato. Acabar com aquela indecisão virou objetivo de vida.

Queria viver o presente. Só isso... Seria pedir muito?

Ele continuou em silêncio. Que era arma e escudo, naquele momento. No íntimo, porém, admirava-se. Era verdade absoluta o que acabara de ouvir. Já não eram mais os mesmos. Não se divertiam como nos primeiros tempos. Em boa parte por culpa própria, reconhecia.

Até já se esquecera de como é a espontaneidade de um sorriso.

Pudera, tantas e tantas a resolver...

Vacilão.

Respirou fundo.

Encarou friamente a doce beleza da moça.

Ela desandara a falar sobre coisas que ele não gostaria de estar ouvindo. E falava num tom absolutamente sério, convicto.

Tentou contra-argumentar e invocar o quanto foram felizes, os momentos únicos que viveram, o quanto ainda era plena a entrega.

Não recebeu qualquer resposta favorável, qualquer reação.

Outro suspiro.

Passou a considerar a hipótese de que estava mesmo tudo acabado. Mesmo assim jogou os últimos trunfos. Disse tudo o que um homem pode dizer à mulher amada -- e foi embora.

O truque já dera certo em outras ocasiões.

Entrou no carro sozinho.

Esperou alguns minutos antes de dar a partida naquela trapitonga que lhe trouxera de tão longe. Olhos arregalados, coração batia rápido, descompassado.

Silêncio absoluto. Nem sombra dela.

Girou a chave na ignição. Pisou no acelerador e lentamente foi deixando para trás os sonhos e a frustração de ter cavado o próprio destino. Ser só.



Escrito por Rodolfo C. Martino às 20h00
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Rola bola, rola bola...

       

        Reprodução

 

 

 

Termina o jogo Palmeiras e Comercial.

 O repórter de campo corre para pegar uma brecha na entrevista de Marcos Assunção à saída do gramado.

 Ouve-se a pergunta de um dos tantos repórteres que cercam o boleiro:

 -- Assunção, a torcida está gritando “vergonha, vergonha”. O que você tem a dizer? É vergonha mesmo?

 Assunção tenta se livrar do assédio– empatar com o Comercial com dois a menos durante quase todo o segundo tempo não é tarefa das mais auspiciosas.

 -- É isso mesmo. Não fizemos uma boa apresentação. A torcida tem o direito de gritar o que quiser.

 Momentos depois os microfones voltam-se para o goleiro Deola, também à saída do gramado:

 O repórter não tem dúvida em qual será a provocação:

 -- Deola, o Assunção usou o termo “vergonha”. É isso mesmo?

 Jornalismo, zero.

 Sessão fofoca, um.

 II.

 Desconfio que a sucessão de Mano no comando da seleção já está em andamento.

 Amigos do presidente da CBF, José Maria Marin, andaram conversando com o presidente do Palmeiras, Arnaldo Tirone, sobre a situação de Luiz Felipe Scolari. Até quando vai o contrato do treineiro com o time da Turiassu.

 Também na Vila Belmiro chegaram rumores do interesse da CBF em Muricy Ramalho.

 São os dois nomes que se destacam.

 Por enquanto, Mano Menezes vai tocando, mas as Olimpíadas serão decisivas.

 Fumaça e fogo, lembram da velha máxima...

 III.

 Depoimento do Rodrigo Santoro à revista TAM Nas Nuvens, que registrou o papo do ator com o escritor Marcos Eduardo Neves (autor de “Nunca Houve Um Homem Como Heleno”), sobre um dos personagens mais instigantes do futebol brasileiro, o craque Heleno de Freitas, que tem sua história retratada nos cinemas da cidade.  

 “Espero que ele (Heleno) se sinta homenageado onde quer que esteja. O livro que você escreveu, Marcos, eu recomendo. E posso assegurar que fizemos esse filme com o coração, cuidado e respeito. (...) Fizemos o retrato de um cara que é patrimônio do futebol brasileiro. O filme acabou sendo bem realizado, tem potencial e o está exercendo, mas não faço filmes para buscar resultados. Faço para contar uma história. O resultado é consequência.”



Escrito por Rodolfo C. Martino às 19h04
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Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Homem

Rodolfo Carlos Martino é mestre em Comunicação Social. Leciona na Universidade Metodista, onde responde pela coordenação do curso de jornalismo, desde 2005. Foi diretor de Redação de Gazeta do Ipiranga por 28 anos. Autor do livro "Às Margens Plácidas do Ipiranga".

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